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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O céu de Outubro

O céu virado a Este, às 7h da manhã de 9 de Outubro 2015 
Neste mês, os planetas estarão (quase) todos visíveis ao amanhecer, com Vénus (a “híper estrela”), Marte, Júpiter (a “super estrela”), e até por tempo limitado Mercúrio, visíveis antes de o Sol se levantar.

Ao longo do mês será ainda possível observar uma autêntica “dança” dos planetas, com Júpiter a afastar-se do Sol, passando primeiro por Marte e depois por Vénus, planeta que entretanto já parou de se afastar do Sol, começando novamente a aproximar-se do astro-rei.

O céu de Outubro começa por nos reservar uma Lua em Quarto Minguante, no dia 4, com o nosso satélite a passar a apenas 1 grau de Vénus na madrugada do dia 8.

No amanhecer do dia seguinte serão quatro os objectos do Sistema Solar “empacotados” na constelação de Leão. Júpiter, Marte, a Lua e Vénus estarão dispostos quase em linha recta, com os dois das pontas (Júpiter e Vénus) separados por pouco mais de 12 graus (aproximadamente um punho fechado, à distância de um braço esticado).

O amanhecer do dia 9 é também a altura do máximo da chuva de estrelas das Dracónidas, mas sendo uma chuva pouco intensa (embora tenha alguns surtos de maior intensidade), provavelmente não valerá a pena ficarem acordados de propósito para vislumbrar apenas um ou outro meteoro.

Dia 10, a Lua passará a 3 graus de Júpiter, e dia 11 a apenas 1 grau de Mercúrio. A Lua Nova ocorrerá no dia 13.

Dia 16, virados a Sudoeste ao anoitecer e separados por 3 graus, encontrarão a Lua e o único dos planetas visíveis a olho nu que não está visível de madrugada – Saturno.

Dia 17 ocorrerá o primeiro encontro cósmico do mês, com a conjunção (ponto de maior aproximação) entre Marte e Júpiter, com os dois separados por apenas meio grau.

Dia 20 a Lua estará em crescente, e dia 23, Júpiter estará mesmo a meio entre Marte e Vénus, com estes dois últimos separados por apenas 5 graus.

No dia 25 muda da hora, altura em que saímos do horário de Verão e voltamos ao verdadeiro horário solar. Por isso, não se esqueçam de, às 3h da manhã (hora do Luxemburgo), atrasar os relógios uma hora.

O segundo encontro cósmico do mês será entre o segundo e terceiro objectos mais brilhantes do céu nocturno. A conjunção de Júpiter e Vénus ocorrerá no dia 26, altura em que os dois planetas passarão a apenas 1 grau um do outro.

Finalmente, quase a terminar outubro, a Lua Cheia, redonda “como um queijo” ocorrerá no dia 27.


Ricardo Cardoso Reis (texto adaptado)
Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O céu de Setembro

Dia 4 - O início do mês de Setembro será a altura mais adequada para a observação de Mercúrio, uma vez que o planeta atinge o seu maior afastamento para leste relativamente ao Sol no dia 4 (distando 27 graus do nosso astro-rei), permitindo-nos vislumbrá-lo ao anoitecer.

Dia 5 - Na madrugada de dia 5, a Lua irá passar a menos de um grau da estrela Aldebarã, o "olho" da constelação do Touro.

Dia 5 - Neste mesmo dia dar-se-á o quarto minguante. Pelas 6 horas da madrugada de dia 10 será possível ver a Lua na vizinhança de Vénus e Marte. Igualmente Júpiter ocupa esta parte do céu, nascendo pelas 7h20. Este planeta só começará a ser bem visível na segunda metade do mês.

Dia 13 - A Lua Nova terá lugar no dia 13. Como esta ocorre muito perto do plano da órbita terrestre (plano da eclíptica), do alinhamento Sol-Lua-Terra resultará um eclipse solar. Mas ao contrário do que sucedeu em Março, este eclipse apenas será parcial e unicamente visível no sul de África e parte da Antárctida.

Dia 15 - No espaço de uma semana podemos apreciar facilmente o movimento da Lua no céu: no dia 15, a Lua situar-se-á a poucos graus de Mercúrio e da Espiga, a estrela mais brilhante da constelação da Virgem.

Dia 18 - Na noite de dia 18, a Lua situar-se-á perto de Saturno, que por esta altura estará perto da constelação da Balança.

Dia 21 - Para finalizar, aquando do quarto crescente de dia 21, o nosso satélite natural já estará junto à constelação do Sagitário.

Céu a sudoeste pelas 21h40 de dia 4. Igualmente é visível a posição da Lua nas noites de dias 15 18 e 21.
 
Dia 23 - Em consequência da rotação da Terra em torno do Sol, pelas 10h21 do dia 23 o eixo de rotação terrestre estará perpendicular à direção Sol-Terra. Esta é uma das duas únicas alturas do ano em que os hemisférios Norte e Sul se encontram igualmente iluminados.

Em Portugal, este momento é chamado de equinócio de Outono pois, a partir deste instante, passamos a ver o Sol abaixo do equador celeste (a projecção nos céus do equador terrestre), o que marca o início do Outono.

Dia 24 - Por volta de dia 24 iremos encontrar Marte perto de Régulo, a estrela mais brilhante da constelação do Leão.

Dia 28- Pelas 4h47 da madrugada de dia 28 terá lugar a Lua Cheia. Como esta ocorre perto do perigeu (altura da maior aproximação da Lua à Terra, que corresponde a cerca de 93% da distância média entre eles) o nosso satélite natural irá parecer ligeiramente maior do que é habitual. Trata-se da penúltima e maior super-Lua deste ano. Tal como terá sucedido aquando da Lua Nova anterior, esta fase da Lua terá lugar muito perto do plano da eclíptica, dando assim origem a um eclipse lunar. Este eclipse será total pois a Lua vai atravessar a região de maior escuridão da sombra da Terra (a umbra). Este eclipse ocorre entre as 2h12 e as 7h22. De notar que o mesmo fenómeno de dispersão de luz na atmosfera responsável pelo nosso céu ser azul, faz com que num eclipse lunar total a Lua receba parte da radiação solar vermelha desviada pela nossa atmosfera, conferindo-lhe assim aquele tom vermelho característico.

Céu a sudeste pelas 7h da madrugada de dia 24. Também é indicada a posição da Lua, Vénus, Marte e Júpiter na madrugada de dia 10.
 
Boas observações!

Fernando J.G. Pinheiro 
 (CITEUC- Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra)
in Ciência Viva na Imprensa Regional

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A nossa visão do Cosmos mudou com o telescopio Hubble

A luz do Sol permitiu e sustenta a vida na Terra. Mas foi a contemplação do céu nocturno que conduziu a vida feita inteligência ao assombro de compreender o Cosmos.

A observação sistemática do céu nocturno é uma constante ao longo da história da humanidade, um pulsar da cultura humana. Contudo, a nossa visão, adaptada que está à luz solar, não possui a acuidade suficiente para perscrutar toda a riqueza escondida no céu nocturno.

Foto: ESA

Para reduzir esta nossa miopia cósmica, Galileu Galilei, com a sua luneta, no início do século XVII, deu mais luz à nossa retina e permitiu a revolução científica e humanística que dele herdamos. A observação instrumental do Universo permitiu progressivamente compreender melhor o nosso lugar e a composição do Cosmos.

Mas observar o céu a partir da Terra encontra uma limitação não ultrapassável mesmo com os mais modernos telescópios: a atmosfera, se por um lado protege a vida das perigosas radiações ultravioleta e raios cósmicos, por outro perturba e reduz a luz que nos chega das estrelas.

“A atmosfera deixa de ser transparente para a luz de comprimento de onda abaixo de 300 nm (300 nanómetros), impedindo as observações no domínio do ultravioleta; permite a passagem da radiação visível mas deixa novamente de ser transparente para comprimentos de onda acima de cerca de 1100 nm, impedindo a observação no infravermelho longínquo”, explica o astrónomo amador Guilherme de Almeida.

Hoje sabemos que é importante observar o Universo para além da luz visível. Este problema levou gerações de astrónomos a sonhar com a colocação de um telescópio no espaço, a orbitar a Terra, para além da sua atmosfera. E, assim que a tecnologia o permitiu, um telescópio foi enviado ao encontro do conhecimento.

Hubble, uma colaboração entre a NASA e a ESA

Foi a 24 de Abril de 1990 que a NASA lançou, em colaboração com a ESA, a bordo do vaivém espacial Discovery, o Telescópio Espacial Hubble (http://hubblesite.org/).

Este ano celebra-se assim o 25º aniversário deste telescópio assim designado para homenagear Edwin Powell Hubble (1889-1953), o astrónomo norte-americano que revolucionou a astronomia ao demonstrar, entre outras coisas, que as estrelas se afastam umas das outras a uma velocidade proporcional à distância que as separa, ou seja, que o Universo está em expansão.

Com o telescópio espacial Hubble também o nosso conhecimento se expandiu como nunca antes. O Hubble ficou a orbitar a Terra a uma altitude de 552 km, perfazendo uma volta ao nosso planeta a cada 97 minutos.

“Opticamente, o Hubble tem 2,40 m de abertura (diâmetro óptico útil), e funciona na configuração de Cassegrain, versão Ritchey-Chrétien”, especifica Guilherme de Almeida.

Acima da atmosfera, o Hubble está ao abrigo da turbulência atmosférica e por isso consegue obter imagens limitadas apenas pela sua óptica e já não sujeitas às turbulências da atmosfera terrestre e, para além da radiação visível, podem fazer-se registos nos domínios do ultravioleta e do infravermelho. Esta possibilidade permitiu ao Hubble captar imagens deslumbrantes de galáxias, nebulosas e estrelas muito distantes com uma resolução ímpar que permite o seu estudo e interpretação científica.

Ao longo destes 25 anos, a ciência feita com o Hubble revolucionou o conhecimento de forma equiparável ao feito de Galileu há 500 anos. Este telescópio tornou-se um dos instrumentos mais produtivos ao dispor da comunidade científica, dando origem a mais de 10 mil artigos científicos.

Hubble, um dos mais profícuos instrumentos astronómicos de sempre

Para David Sobral, Investigador do I.A. - Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, na Holanda, “o Hubble teve e tem uma importância incalculável para a Astronomia e Astrofísica.

Ainda que não seja dos maiores telescópios que existe (tem “apenas” 2.4 metros), o facto de se encontrar numa órbita próxima foi incrivelmente importante, e já foram feitas 5 missões para o seu “upgrade”. A primeira foi capaz de colocar o telescópio a funcionar com todo o seu potencial, mas ao longo dos anos, novos instrumentos fizeram com que o telescópio fosse ficando cada vez mais poderoso e competitivo. Hoje continua a ser dos mais concorridos e potentes.

Com o Hubble é possível ver não só detalhes incríveis no nosso sistema solar e na nossa própria galáxia, mas também procurar e estudar as galáxias mais distantes alguma vez estudadas.” Este astrónomo português que faz investigações com o Hubble, destaca “a descoberta e estudo de galáxias a mais de 13 mil milhões de anos-luz”.

David Sobral acrescenta que “talvez uma das grandes descobertas passou pela observação ultra-profunda de uma pequeníssima área do céu, dando-nos a imagem mais profunda alguma vez obtida pela humanidade."

"O Hubble mostrou que por mais pequena e negra seja uma área do céu, existem dezenas de milhares de galáxias, das mais variadas formas, cores e tamanhos”, diz ainda David Sobral.

Segundo João Fernandes, que dirige o Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra, “o telescópio espacial Hubble tem sido um dos mais profícuos instrumentos astronómicos de sempre. A sua ”visão” leva-nos do Sistema Solar aos confins do Universo, passando por nebulosas, estrelas e galáxias.

São milhares as fantásticas imagens que hoje povoam os livros e a internet que relatam as descobertas do Hubble. São, igualmente, inúmeros os artigos científicos e avanços do conhecimento do espaço graças ao Hubble. É difícil escolher a observação ou descoberta mais importante.

Hubble foi o "culpado" pela despromoção de Plutão

Pela proximidade com a Terra e pelas questões que a temática levantou (e levanta), João Fernandes destaca as observações que o Hubble fez de Plutão: “Plutão é hoje denominado um “planeta anão” (após a revisão da definição de “planeta” feita pela União Astronómica Internacional, em 2006) e tem um sistema de várias luas em seu redor. O Hubble fez das primeiras imagens da superfície de Plutão como fez também descobertas de várias dessas luas.

Apesar da “desqualificação” sofrida, Plutão continua a atrair muito interesse pelo que nos pode informar sobre a formação e evolução do Sistema Solar.”

“Portugal, enquanto membro pleno da ESA, tem hoje acesso total ao Hubble”, diz-nos David Sobral.

“Qualquer investigador a trabalhar em Portugal pode fazer uma proposta e obter tempo para observar e responder a inúmeras perguntas. No entanto, e ainda que Hubble esteja a completar 25 anos, continua a ser altamente requisitado.

Este ano foram novamente submetidas mais de 1.300 propostas dos melhores investigadores do Mundo para realizar as mais diversas observações. Isso faz com que apenas uma em cada oito propostas tenham sucesso e sejam observadas.

Por exemplo, o bioquicio portugues António Piedade submeteu duas propostas para observar galáxias distantes únicas descobertas recentemente e que se achava que não existiam. Daqui a alguns meses, o Hubble vai talvez poder estuda-las como só o Hubble consegue.

Fonte: Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O céu de Dezembro

Marte e a Lua ao anoitecer do dia 25 de Dezembro 2014. (Imagem: Ricardo Cardoso Reis/Stellarium)

O planeta Marte continua a acompanhar-nos ao início da noite. Durante todo o mês de Dezembro, estará visível a cerca de 20 graus acima do horizonte, logo ao pôr-do-Sol, virado a sudoeste.

No dia 6, o nosso satélite chega à fase de Lua Cheia, e no dia 14, atinge o quarto minguante. Nesse dia ocorre o pico da chuva de estrelas da Geminíadas, cujo radiante (o ponto no céu de onde parecem vir os meteoros) se encontra na direção da constelação de Gémeos.

Juntamente com as Quadrântidas no início de Janeiro, estas duas chuvas de meteoros são as maiores do ano. Apesar do pico das Geminíadas deste ano estar previsto para o meio-dia, esta chuva mantém uma taxa próxima do máximo, de 120 meteoros por hora (em céus escuros), durante quase um dia.

Por isso, a madrugada e o anoitecer de dia 14 de Dezembro serão as alturas mais propícias para tentar ver Geminíadas.

No dia 19 a Lua passa a apenas 1 grau de Saturno, mas esta passagem “a rasar” ocorre quando estão os dois abaixo do horizonte. Na altura em que estarão ambos visíveis, por volta das 6 da manhã, já a Lua se afastou e estará a quase 6 graus do planeta.

Às 23h03 do dia 21 ocorre o solstício de Inverno (no hemisfério Norte), assinalando-se assim o fim do Outono. Este é o dia mais pequeno do ano, e aquele em que o Sol, ao meio-dia, atinge a altura mínima de todo o ano.

Nesse dia, o Norte de Portugal irá ver o Sol nascer às 7h56 e pôr-se às 17h09, totalizando apenas 9h13m de luz o dia.

No Algarve nasce às 7h41 e põe-se às 17h18 (9h47m de duração do dia), enquanto no Funchal, nascimento e ocaso ocorrem pelas 8h06 e 18h06 (10h de luz), respectivamente.

Em Ponta Delgada, já que os Açores têm menos uma hora que o Continente, o Sol irá nascer às 8h54 e pôr-se às 18h27 (somando 9h33m de dia).

Dia 22 a Lua atinge a fase de Lua Nova, e 3 dias depois, em pleno dia de Natal, o nosso satélite, em fino crescente, passará a menos de 5 graus de Marte. Mas ao anoitecer, quando ambos ficam visíveis, já estarão a cerca de 8 graus um do outro.

Dia 28 a Lua chega ao quarto crescente.

Ao anoitecer de 31 de Dezembro, e se tiverem visão completamente desimpedida para o horizonte virado a Sudoeste (um pouco à esquerda do pôr-do-Sol), pode ser que consigam reparar no regresso do planeta Vénus como “estrela da tarde”. Mas isto será só para os mais atentos, pois o planeta estará a menos de 10 graus acima do horizonte, e em menos de uma hora desaparecerá abaixo do horizonte.

No dia seguinte começa um novo ano, mas este não é apenas mais um, pois 2015 é o Ano Internacional da Luz.

Ricardo Cardoso Reis (IA/UPorto)
© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O céu do mês de Junho


Neste mês de Junho despedimo-nos do planeta Júpiter, pois a “super-estrela” que nos acompanhou nos últimos meses, está cada vez mais próxima do Sol. No início do mês ainda se vê, mesmo ao pôr-do-Sol, mas a partir do meio do mês, já estará demasiado próximo da nossa estrela.

De madrugada, continuaremos a poder ver a “estrela da manhã”, o planeta Vénus, que nasce por volta das 4h30. Este está visível durante cerca de hora e meia, já que o Sol nasce por volta das 6h da manhã.

Quanto à Lua, está em quarto crescente a 5 de Junho, e a apenas 2 graus do planeta Marte, no dia 8. Marte distingue-se de uma estrela vulgar pela sua tonalidade alaranjada. Dois dias depois, a Lua passa a apenas 2 graus de Saturno, no dia 13 o nosso satélite atinge a fase de Lua Cheia e no dia 19, o quarto minguante.

O dia 21 é dia de Solstício de Verão, que este ano ocorre às 11h51 da manhã (+1 hora no Luxemburgo).

Esta é a altura em que o Sol atinge o ponto mais a Norte do Equador Celeste e ao meio-dia solar estará no ponto mais alto no céu de todo o ano. É por isso o dia mais longo (durará mais de 14h na Madeira e chegará às 15h no Norte de Portugal Continental) e a noite mais curta do ano.

Este Solstício marca o início do Verão no hemisfério Norte e Inverno no hemisfério Sul. Esta estação irá durar cerca de 94 dias, até ao Equinócio (que para nós será de Outono), que ocorre às 03h29 do dia 23 de Setembro de 2014.

Dia 24 a Lua passa a 4 graus de Vénus e quase a acabar o mês, no dia 27 estará em fase de Lua Nova. Boas observações. Ricardo Cardoso Reis (CAUP) Figura 1: O céu a Sul, no dia 21 de junho, com a estrela Espiga acompanhada de Marte de um lado, e Saturno do outro.

Imagem: Stellarium/Ricardo Cardoso Reis
© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

terça-feira, 29 de abril de 2014

Podemos contar quantas estrelas vemos no céu?


Diz-se que as estrelas visíveis a olho nu são incontáveis. Há quem imagine que são milhões. No entanto, o número de estrelas visíveis sem ajuda óptica, mesmo em condições favoráveis, é relativamente modesto e muito abaixo do que dita o senso comum. Não acredita?

Como fazer um conta-estrelas? Para saber o número aproximado de estrelas que podemos detectar a olho nu, do nosso local, não nos vamos pôr a contar, uma a uma, todas as estrelas visíveis. Isso seria tarefa de matar a paciência de qualquer pessoa. Felizmente há um caminho mais simples e rápido: basear a nossa contagem em amostras fáceis, contando o número de estrelas visíveis numa pequena extensão aparente do céu, bem delimitada.

Deste modo, haverá poucas estrelas a contar em cada caso. Fazendo a média das várias contagens, realizadas em diferentes direcções do céu nocturno, poderemos calcular facilmente o número total (aproximado) de estrelas observáveis.

Para delimitar uma pequena parcela do céu, podemos utilizar um quadrado de cartolina preta, com cerca de 24 cm X 24cm, recortando nele uma abertura circular com 72 mm de diâmetro, centrada no quadrado. A abertura desenha-se com um compasso e depois recorta-se com uma tesoura. Prende-se um cordel fino a um ponto qualquer da cartolina, de modo que, com a linha esticada e a cartolina perpendicular à nossa linha de visão, a cartolina fique a uns 57 cm do olho. Nada mais simples.

A abertura circular, vista à distância referida, delimitará uma área correspondente a cerca de 1/1000 da área total aparente do céu, ou seja, a cerca de 1/500 do céu que num dado momento se encontra acima do horizonte. A justificação é simples: como estamos à superfície da Terra, só poderemos ver (num dado momento), metade da esfera celeste.

À noite, estende-se o cordel conforme indicado e, procurando não mover a cartolina durante cada registo, contam-se as estrelas visíveis a olho nu dentro da abertura circular. Como vamos considerar uma parcela minúscula do céu, o número de estrelas observadas será pequeno e muito rápido de contar. Espere que os seus olhos se adaptem à obscuridade (cerca de 15 minutos), para ver mais estrelas.

Fazem-se pelo menos cinco contagens, em diferentes direcções variadas do céu. Depois faz-se a média dos números assim obtidos. Multiplicando essa média por 500, teremos o número aproximado de estrelas visíveis a olho nu, desse local.

A questão do local é importante porque, como se sabe, nos arredores de uma cidade não contaremos tantas estrelas como no campo. Em vez do quadrado com abertura circular, também se pode utilizar um tubo de cartolina preta, enrolada de modo a ter 57 cm de comprimento e 72 mm de diâmetro. Na extremidade do tubo oposta ao céu deverá estar o olho do observador, bem centrado.

Como exemplo, imaginemos que uma pessoa obteve os números seguintes:
1.ª contagem: 4 estrelas;
2.ª contagem: 5
3.ª contagem: 3
4.ª contagem: 6
5.ª contagem: 4
6.ª contagem: 2

A média destes números é 4,0. Portanto, o número de estrelas acima do horizonte será 500 vezes maior, ou seja, 4 X 500 = 2.000.

Isto corresponde a um local relativamente escuro. Numa aldeia remota obteremos números maiores. Junto às cidades, devido à poluição luminosa, não será surpresa que se vejam menos de 330 estrelas num dado momento.

O senso comum e a tradição popular são muito exagerados, mesmo no caso dos melhores locais de observação. Esta conclusão, embora inesperada, não faz perder a extraordinária beleza e encanto do céu nocturno.

Guilherme de Almeida
Fonte: Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Observar os astros com meios simples


Existe a ideia corrente de que é necessário ter um enorme telescópio e grandes conhecimentos para conhecer o céu. Ou para fazer, com gosto e satisfação, algumas observações astronómicas, imaginado-se que estas estão fora do alcance do comum dos mortais.

Este falso pressuposto leva muitas pessoas a desistir de uma actividade fascinante onde os procedimentos básicos se aprendem no meio do entusiasmo, quase sem se dar por isso. Mesmo com equipamento simples, ou até sem ele, há imensas observações possíveis.

Observações a olho nu (sem instrumentos de óptica) 

É pelas observações a olho nu que devemos começar, pois um binóculo ou um telescópio serão praticamente inúteis se o observador não conhecer o céu: é preciso saber in­terpretar os sucessivos aspectos do céu, em datas e horas diferentes. E saber para onde apontar os instrumentos de observação. Conhecer o céu não é difícil e tem de ser feito a olho nu. Apenas é pre­ciso começar e "praticar com alguma regularidade". Serão também úteis alguns livros que funcionem como guias.

Veja alguns exemplos do que pode fazer a olho nu: 

Localizar e identificar as constelações no céu. 
Identificar as estrelas mais brilhantes, pelos seus nomes. 
Distinguir os céus típicos das diferentes estações do ano. 
Orientar-se pelas estrelas. 
Reconhecer ainda melhor as cores das estrelas. 
Distinguir entre estrelas e planetas. 
Verificar o movimento aparente da Lua e dos planetas Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno em relação às constelações. 
Observar chuvas de meteoros e localizar proximadamente o seu radiante. 
Observar a Via Láctea (se a poluição luminosa for muito baixa).
Medir as distâncias angulares en­tre estrelas ou entre estrelas e planetas. 

E com binóculos? 

Um binóculo vulgar significa um grande progresso relativamente à vista desarmada: capta 50 vezes mais luz do que os nossos olhos! Através do binóculo, as estrelas aparecem muito mais brilhantes. E imensas estrelas invisíveis a olho nu vão revelar-se aos olhos do observador.

As observações melhoram muito em possibilidades e em conforto fixando o binóculo a um tripé fotográfico: há acessórios específicos para isso. Os binóculos mais convenientes para estas observações são os 7x50, onde o primeiro número antes do "x, representa a amplificação e o segundo número indica o diâmetro das lentes objectivas em milímetros (e também os 10x50).

Entre as observações possíveis estão as seguintes: 
Observar e reconhecer os principais "mares" da Lua. 
Observar as maiores crateras lunares. 
Observar o disco de Júpiter. 
Acompanhar o movimento de translação de quatro das luas de Júpiter.
Reconhecer as cores das principais estrelas. 
Observar algumas estrelas duplas. 
Observar muitas estrelas invisíveis a olho nu. 
Observar enxames de estrelas abertos e globulares. 
Observar diversas nebulosas. 
Observar algumas galáxias. 
Explorar a faixa da Via Láctea, que se revela uma imensidão de estrelas. 

Num local com pouca poluição luminosa, através de um binóculo, um observador atento poderá ver magníficos campos de estrelas, enxames de estrelas, algumas galáxias e até diversas nebulosas. A capacidade para discernir estes objectos ténues aumenta muito com o treino.

Para aproveitar a sensibilidade visual dos nossos olhos é preciso aguardar a adaptação dos olhos do observador à escuridão (pelo menos 15 min). Este cuidado dispensa-se no caso da Lua e dos planetas brilhantes.

Texto e mapas: Guilherme de Almeida (1#) / 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva 

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Para saber mais:
Guilherme de Almeida, "O Céu nas Pontas dos Dedos", Plátano Editora, Lisboa, 2013
Guilherme de Almeida. "Roteiro do Céu", Plátano Editora, Lisboa, 5.ª Edição, 2010
Guilherme de Almeida e Pedro Ré, "Observar o Céu Profundo", Plátano Editora, Lisboa, 2.ª Edição, 2004

1# Guilherme de Almeida nasceu em 1950. É licenciado em Física pela Faculdade de Ciências de Lisboa e foi professor desta disciplina, tendo incluído Astronomia na sua formação universitária. Realizou mais de 80 palestras e comunicações sobre Astronomia, observações astronómicas e Física, em escolas, universidades e no Observatório Astronómico de Lisboa. Utiliza telescópios mas defende a primazia do conhecimento do céu a olho nu antes da utilização de instrumentos de observação. Escreveu mais de 90 artigos de Astronomia e Física. É autor de oito livros: Sistema Internacional de Unidades; Itens e Problemas de Física–Mecânica (co-autor); Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas (co-autor); Roteiro do Céu; Observar o Céu Profundo (co-autor); Telescópios; Galileu Galilei; O Céu nas Pontas dos Dedos. A obra Roteiro do Céu foi publicada em inglês, sob o título "Navigating the Night Sky (Springer Verlag–London). O livro Galileu Galilei também está publicado em castelhano e catalão.