terça-feira, 29 de abril de 2014

Podemos contar quantas estrelas vemos no céu?


Diz-se que as estrelas visíveis a olho nu são incontáveis. Há quem imagine que são milhões. No entanto, o número de estrelas visíveis sem ajuda óptica, mesmo em condições favoráveis, é relativamente modesto e muito abaixo do que dita o senso comum. Não acredita?

Como fazer um conta-estrelas? Para saber o número aproximado de estrelas que podemos detectar a olho nu, do nosso local, não nos vamos pôr a contar, uma a uma, todas as estrelas visíveis. Isso seria tarefa de matar a paciência de qualquer pessoa. Felizmente há um caminho mais simples e rápido: basear a nossa contagem em amostras fáceis, contando o número de estrelas visíveis numa pequena extensão aparente do céu, bem delimitada.

Deste modo, haverá poucas estrelas a contar em cada caso. Fazendo a média das várias contagens, realizadas em diferentes direcções do céu nocturno, poderemos calcular facilmente o número total (aproximado) de estrelas observáveis.

Para delimitar uma pequena parcela do céu, podemos utilizar um quadrado de cartolina preta, com cerca de 24 cm X 24cm, recortando nele uma abertura circular com 72 mm de diâmetro, centrada no quadrado. A abertura desenha-se com um compasso e depois recorta-se com uma tesoura. Prende-se um cordel fino a um ponto qualquer da cartolina, de modo que, com a linha esticada e a cartolina perpendicular à nossa linha de visão, a cartolina fique a uns 57 cm do olho. Nada mais simples.

A abertura circular, vista à distância referida, delimitará uma área correspondente a cerca de 1/1000 da área total aparente do céu, ou seja, a cerca de 1/500 do céu que num dado momento se encontra acima do horizonte. A justificação é simples: como estamos à superfície da Terra, só poderemos ver (num dado momento), metade da esfera celeste.

À noite, estende-se o cordel conforme indicado e, procurando não mover a cartolina durante cada registo, contam-se as estrelas visíveis a olho nu dentro da abertura circular. Como vamos considerar uma parcela minúscula do céu, o número de estrelas observadas será pequeno e muito rápido de contar. Espere que os seus olhos se adaptem à obscuridade (cerca de 15 minutos), para ver mais estrelas.

Fazem-se pelo menos cinco contagens, em diferentes direcções variadas do céu. Depois faz-se a média dos números assim obtidos. Multiplicando essa média por 500, teremos o número aproximado de estrelas visíveis a olho nu, desse local.

A questão do local é importante porque, como se sabe, nos arredores de uma cidade não contaremos tantas estrelas como no campo. Em vez do quadrado com abertura circular, também se pode utilizar um tubo de cartolina preta, enrolada de modo a ter 57 cm de comprimento e 72 mm de diâmetro. Na extremidade do tubo oposta ao céu deverá estar o olho do observador, bem centrado.

Como exemplo, imaginemos que uma pessoa obteve os números seguintes:
1.ª contagem: 4 estrelas;
2.ª contagem: 5
3.ª contagem: 3
4.ª contagem: 6
5.ª contagem: 4
6.ª contagem: 2

A média destes números é 4,0. Portanto, o número de estrelas acima do horizonte será 500 vezes maior, ou seja, 4 X 500 = 2.000.

Isto corresponde a um local relativamente escuro. Numa aldeia remota obteremos números maiores. Junto às cidades, devido à poluição luminosa, não será surpresa que se vejam menos de 330 estrelas num dado momento.

O senso comum e a tradição popular são muito exagerados, mesmo no caso dos melhores locais de observação. Esta conclusão, embora inesperada, não faz perder a extraordinária beleza e encanto do céu nocturno.

Guilherme de Almeida
Fonte: Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Nebulosa azul e estrela formam um diamante cósmico

Abell 33 é uma bonita bolha azul. Vista da Terra fica em frente à estrela HD 83535.
O duo forma um diamante cósmico Foto: ESO
Os astrónomos utilizaram o Very Large Telescope (VLT) do ESO no Chile para capturar esta bela imagem da nebulosa planetária PN A66 33 - conhecida normalmente por Abell 33. Formada quando uma estrela em envelhecimento lançou para o espaço as suas camadas externas, esta bonita bolha azul está, por mero acaso, para um observador da Terra alinhada com uma estrela que se encontra em primeiro plano, o que torna o conjunto extremamente parecido a um anel de noivado com um diamante. Esta jóia cósmica é invulgarmente simétrica, aparecendo como um círculo quase perfeito no céu.

A maioria das estrelas com massas da ordem da no nosso Sol terminarão as suas vidas sob a forma de anãs brancas - corpos quentes, pequenos e muito densos que vão arrefecendo lentamente ao longo de milhares de milhões de anos.

Antes desta fase final das suas vidas, as estrelas libertam para o espaço as suas atmosferas, criando nebulosas planetárias - nuvens de gás coloridas e luminosas que envolvem as pequenas relíquias estelares brilhantes.

Abell 33 é uma nebulosa planetária extraordinariamente circular, situada a cerca de 2.500 anos-luz de distância da Terra. O facto de ser perfeitamente redonda é bastante invulgar neste tipo de objectos, pois geralmente existe algo que perturba a simetria e faz com que a nebulosa planetária apresente formas irregulares.

A estrela muito brilhante situada na periferia da nebulosa dá origem a uma bonita ilusão óptica nesta imagem do VLT. O alinhamento verificado acontece por mero acaso - a estrela, chamada HD 83535, situa-se em primeiro plano, a meio caminho entre a Abell 33 e a Terra, no local exacto para tornar esta imagem ainda mais bonita. Juntas, a HD83535 e a Abell 33 formam um cintilante anel de diamantes.

O que resta da estrela progenitora de Abell 33, e que irá formar uma anã branca, pode ser vista, ligeiramente descentrada no interior da nebulosa, como uma pequeníssima pérola branca. Ainda é bastante brilhante - mais luminosa que o nosso Sol - e emite radiação ultravioleta suficiente para fazer com que a bolha de material expelido brilhe

Abell 33 é apenas um dos 86 objectos catalogados pelo astrónomo George Abell em 1966 no seu Catálogo de Nebulosas Planetárias. Abell perscrutou também os céus em busca de enxames de galáxias, tendo compilado no Catálogo de Abell mais de 4.000 enxames, tanto no hemisfério norte como no sul.

Esta imagem foi obtida a partir de dados colectados pelo instrumento FOcal Reducer and low dispersion Spectrograph (FORS), montado no VLT, no âmbito do programa Jóias Cósmicas do ESO.

Fonte: ESO

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Astrónomos conseguem nova imagem da nuvem de hidrogénio Gum 41

A nuvem de hidrogénio Gum  41 Foto: ESO

Esta nova imagem obtida no Observatório de La Silla do ESO, no Chile, revela uma nuvem de hidrogénio chamada Gum 41. No seio desta nebulosa pouco conhecida, estrelas luminosas, quentes e jovens, emitem radiação que faz brilhar o hidrogénio circundante num caraterístico tom escarlate.

A região do céu austral na constelação do Centauro acolhe muitas nebulosas brilhantes, cada uma associada a estrelas quentes recém nascidas que se formaram das nuvens de hidrogénio gasoso. A intensa radiação emitida pelas estrelas jovens excita o hidrogénio que resta, fazendo com que este brilhe na cor vermelha típica das regiões de formação estelar. Outro exemplo famoso do mesmo fenómeno pode ser observado na Nebulosa da Lagoa, uma enorme nuvem que brilha em semelhantes tons escarlates.

A nebulosa que vemos na imagem situa-se a cerca de 7.300 anos-luz de distância da Terra. Foi descoberta pelo astrónomo australiano Colin Gum em fotografias obtidas no Observatório de Mount Stromlo, próximo de Canberra.

Gum incluiu este objecto no seu catálogo de 84 nebulosas de emissão, publicado em 1955. Gum 41 é, na realidade, uma pequena parte de uma estrutura muito maior chamada Nebulosa Lambda Centauri, também conhecida pelo nome mais exótico de Nebulosa da Galinha Fugitiva. Gum morreu tragicamente em 1960, ainda novo, num acidente de esqui na Suíça.

Nesta imagem da Gum 41, as nuvens parecem ser muito espessas e brilhantes, no entanto não é este o caso. Se um hipotético viajante espacial passasse pelo meio desta nebulosa, muito provavelmente nem o notaria. É que, mesmo de muito perto, a nebulosa apresenta-se ténue demais para poder ser detectada com o olho humano, facto que ajuda a perceber como é que um objecto tão grande apenas foi descoberto em meados do século XX - a sua radiação expande-se de modo muito ténue e o brilho vermelho não se consegue observar adequadamente no domínio óptico.

Esta nova imagem da Gum 41 - provavelmente uma das melhores obtidas até agora - foi criada a partir de dados do instrumento Wide Field Imager (WFI), montado no telescópio MPG/ESO de 2,2 metros, no Observatório de La Silla, no Chile. Trata-se de uma combinação de imagens captadas através de três filtros de cor (azul, verde e vermelho) e de um filtro especial que capta a radiação vermelha emitida pelo hidrogénio.

Fonte: ESO

domingo, 20 de abril de 2014

DD - Documentários ao Domingo: Star Trek, entre a realidade e a ficção

No documentário de hoje, o canal História e o seu programa "Segredos do Universo" visitam o último filme "Star Trek - Into Darkness" , de JJ Abrams para estudar seriamente o que nos falta para chegar a essa realidade: construir uma nave como a USS Enterprise, viajar até às estrelas tão facilmente como o fazem em Star Trek, explorar planetas fora do nosso sistema solar, a física da velocidade warp , entre muitos outros aspectos, entre a realidade da tecnologia actual e a ficção do que mostra o filme. O realizador do filme e conceituados cientistas participaram neste documentário.

 

sábado, 19 de abril de 2014

Nasa construiu um "disco voador" insuflável para explorar Marte

Foto: Nasa
Neste momento, vários rovers da Nasa exploram Marte. Mas a grande questão é: qual o próximo passo?

A próxima fase é enviar naves maiores, mais pesadas, com mais aparelhos e até astronuatas a bordo até ao planeta vermelho. Mas como pousar em Marte naves mais pesadas sem se despenharem? Os pára-quedas actuais com que as sondas aterram em Marte já são enormes e não suportam veículos mais pesados.

Como fazer no caso de um veículo mais pesado? Talvez integrando na nave um desacelerador, pensaram os engenheiros da Nasa. Nos últimos anos desenvolveram uma nave destas e construíram um protótipo que se parece estranhamente com um disco voador.

Baptizado "Low-Density Supersonic Decelerator - LDSD), a nave mede 1,80m de altura para uma largura de 6,70m e deverá ser lançada do Havai em Junho de 2015, para um voo teste.

O desacelerador, que é uma espécie de enorme donut insuflável, está fixado na cápsula espacial e é este aspecto que lhe dá um ar de "disco voador"

e deverá ser despoletado ao entrar na atmosfera de Marte. Ao ser accionado, o dispositivo aumenta de tamanho mas conserva a mesma massa, o que fará o veículo travar gradualmente até aterrar.

Em Junho de 2015, o dispositivo LDSD vai ser testado a 36 mil metros de altitude, zona da atmosfera terrestre semelhante à da atmosfera menos densa de Marte. O veículo será depois propulsado a Mach 4 i.e. quatro vezes a velocidade do som, a cerca de 5 mil km/hora, simulando o voo descendente de uma nave terrestre em Marte. O dispositivo insuflável entrará depois em acção para travar progressivamente o veículo. Só depois um pára-quedas será accionado.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nasa descobre primeiro exoplaneta habitável do tamanho da Terra

Imagem: NASA Ames/SETI Institute/JPL-Caltech
Uma equipa internacional de astronomos descobriram o primeiro exoplaneta (planeta fora do Sistema Solar) de tamanho similar ao da Terra e onde pode existir água em estado líquido, o que o torna habitável.

O exoplaneta, denominado Kepler-186f, foi o primeiro avistado por cientistas da Nasa usando o telescópio Kepler, segundo um estudo publicado esta quinta-feira na revista científica americana Science.

A caça a exoplanetas habitáveis deu hoje um salto em frente com esta descoberta.

O planeta em questão encontra-se na "goldilock zone" (zona habitável) da sua estrela (Kepler-186),
a uma distancia de 500 anos-luz da Terra.

Kepler-186f é um de cinco planetas a orbitar a sua estrela, o mais afastado também, quase na zona exterior da "zona habitável". A sua estrela tem uma luz mais ténue e é também mais fria que o nosso Sol.

Este planeta tem é o único a possuir características para poder abrigar água líquida, critério considerado essencial pelos astrónomos para encontrarem vida extra-terrestre.

O planeta é ligeiramente maior do que a Terra, cerca de 1,1 vezes mais. Quando os exoplanetas na zona habitável de uma estrela são maiores do que a Terra cerca de 1,5 vezes tem tendencia a atrair camadas espessas de hidrogénio e de hélio na atmosfera, o que as faz assemelhar mais a planetas como Júpiter ou Saturno e o que impossibilita também o desenvolvimento da vida.

O facto de ser ligeiramente maior do que a Terra faz com que tenha uma maior insolação do que o nosso. Ou seja, apesar de estar quase fora da zona habitável, o planeta pode perfeitamente ter uma atmosfera e temperaturas favoráveis ao desenvolvimento da vida.

O planeta foi descoberto recorrendo à técnica indirecta do "transito orbital". A tecnologia actual ainda não permite aos astrónomos observarem exoplanetas potencialmente habitáveis de forma directa.

Desde meados dos anos 1990 foram já descobertos cerca de 1.800 exoplanetas. Destes, apenas duas dezenas se situam dentro da "zona habitável". Até agora, todos estas potenciais "Super-Terras" são tabém maiores do que o nosso planeta.

O telescópio espacial Kepler, lançado em Março de 2009 e que já não está em actividade, observou um total de 150 mil estrelas durante a duração da sua missão de quatro anos (2009-2013). Até agora, apenas foram descobertos planetas em torno de pouco mais de um milhar de estrelas. Mas esta é a ponta do iceberg já que apenas uma parte dos dados da Missão Kepler foram analisados e divulgados.

JLCorreia/com agencias

(Esta noticia também foi publicada no site contacto.lu)

sábado, 5 de abril de 2014

DD - Documentários ao Domingo: O Big Bang de João Magueijo

O cosmologista e físico teórico João Magueijo nasceu em Évora, em 1967, e faz hoje parte do Grupo de Física Teórica do Imperial College, em Londres.

É autor da Teoria VSL (Velocidade Variável da Luz), que veio questionar a premissa mais básica da Teoria da Relatividade de Einstein, a de que a velocidade da luz no vácuo é sempre constante, e põe assim em questão o postulado de que a velocidade da luz é imutável..

Magueijo licenciou-se em Física na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e mudou-se depois para Cambridge, em Inglaterra.

Contou com uma bolsa do Trinity College para fazer o mestrado e o doutoramento, acabando por permanecer como investigador no St. John's College.

João Magueijo recebeu aos 11 anos um livro de seu pai que tinha sido escrito por Albert Einstein e Leopold Infeld, obra que diz ter revolucionado a sua vida.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

As galáxias também podem ser assassinas em série

Foto: ESO
Uma nova imagem obtida pelo telescópio MPG, do Observatório Europeu do Sul (ESO), em La Silla (Chile), mostra duas galáxias muito contrastantes: a NGC 1316 e a sua companheira mais pequena NGC 1317 (à direita).

Uma delas é uma galáxia assassina em série, que já engoliu várias outras galáxias. Estas duas galáxias encontram-se muito próximo uma da outra, mas têm histórias muito distintas. A pequena espiral NGC 1317 tem tido uma vida plácida mas a NGC 1316 engoliu já várias outras galáxias ao longo de uma história violenta e mostra bem as suas cicatrizes de guerra.

Diversos indícios na estrutura da NGC 1316 revelam que o seu passado foi turbulento. Por exemplo, o objecto apresenta algumas invulgares faixas de poeira, situadas no interior de um envelope de estrelas muito maior, e uma população de enxames estelares globulares particularmente pequenos.

Estes factos sugerem que esta galáxia pode ter engolido uma galáxia em espiral rica em poeira há cerca de três mil milhões de anos atrás. Vêem-se também caudas de maré muito ténues em torno da galáxia - restos e envelopes de estrelas que foram arrancadas das suas posições originais e lançadas para o espaço intergaláctico, resultado de complexos efeitos gravitacionais nas órbitas das estrelas quando outra galáxia se aproxima demasiado.

Todos estes sinais apontam para um passado violento durante o qual a NGC 1316 anexou outras galáxias e sugerem ainda que este comportamento perturbador continua. A NGC 1316 situa-se a cerca de 60 milhões de anos-luz de distância na constelação da Fornalha. Tem também o nome de Fornax A, reflectindo o facto de ser a mais brilhante fonte de emissão rádio na constelação - é na realidade a quarta fonte rádio mais brilhante em todo o céu. Esta emissão rádio deve-se a material que está a cair em direcção ao buraco negro de massa extremamente elevada situado no centro da galáxia, ao qual tem sido fornecido, muito provavelmente, combustível adicional devido às interacções com outras galáxias.

Esta nova imagem muito detalhada obtida pelo telescópio MPG/ESO de 2,2 metros situado no Observatório de La Silla do ESO no Chile, foi criada a partir de muitas imagens individuais do arquivo ESO. O objectivo das observações originais era revelar estes atributos mais ténues e estudar as perturbações neste interessante sistema.

A nova imagem mostra também uma janela para o Universo longínquo, muito para além das duas galáxias brilhantes que se vêem em primeiro plano. A maioria dos pontos ténues e difusos da imagem são galáxias muito mais distantes, existindo uma concentração particularmente densa mesmo à esquerda da NGC 1316.

Fonte: ESO 
(Este artigo foi também publicado em www.contacto.lu)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Como conhecer o céu da Primavera

Mapa: Guilherme de Almeida
As belas noites primaveris, caracterizadas habitualmente por uma atmosfera tépida e perfumada, são propícias à observação do céu. A descoberta das constelações pode servir-nos como fonte de fascínio ou recurso de orientação. E para melhor referenciar no céu as posições dos planetas e de outros objectos interessantes. Veja como.

Consideram-se estrelas da Primavera as que são visíveis (das nossas latitudes), aproximadamente entre as 22 h e as 24 h, numa qualquer noite a meio desta estação florida.

Devido à rotação da Terra, todos os dias desfilam heróis, mitologias e aventuras sobre as nossas cabeças, fruto da imaginação dos nossos antepassados para melhor recordar e conhecer o céu. Hoje tais histórias têm apenas o sabor da tradição, mas podem ser ainda usadas como orientação.

À medida que a noite avança, mais estrelas se elevam a nascente enquanto outras se escondem a poente.

Olhando para o céu muito mais tarde, digamos às 4h, estaremos já a ver as estrelas que anunciam o Verão, e que poderemos observar a horas mais cómodas na estação quente. Logo que a escuridão se instala veremos a Ursa Maior por cima da estrela Polar (primeira Figura), com a cauda a desenhar-se para a nossa direita.

Cassiopeia encontra-se muito baixa, orientada como um "W", quase a roçar o horizonte norte desimpedido, não sendo por isso de fácil localização nesta época do ano.

Logo ao cair da noite descobrem-se, a oeste, as constelações de Inverno a despedirem-se do observador, algumas quase a mergulhar no horizonte ocidental, como o Orionte, o Cão Maior, o Cão Menor e o Touro (segunda Figura).

Bem acima do horizonte sul, destaca-se a magnífica constelação do Leão, a mais característica da Primavera. Régulo é a sua estrela mais notável. O leitor localizará facilmente o Leão, utilizando as Guardas da Ursa Maior, mas prolongando o seu alinhamento no sentido oposto àquele que nos leva à estrela Polar.

Voltando à Ursa Maior, prolonguemos a sua cauda, seguindo a curvatura em arco que ela evidencia: encontraremos uma estrela muito brilhante e alaranjada (Arcturo), a mais notável da constelação do Boieiro.

Continuando a seguir esse arco imaginário, depois de passar por Arcturo chegaremos a Espiga, a estrela mais brilhante na constelação da Virgem, de brilho branco-azulado.

A partir da Espiga encontram-se facilmente outras referências no céu que nos permitirão localizar as outras constelações da Primavera: o Corvo, a Sul da Virgem. A Coroa Boreal, a este do Boieiro. E a Balança, na faixa do Zodíaco, a este da Espiga.

Se o entusiasmo nos levar a prolongar a noite começaremos a ver surgir as constelações do Verão, como o Escorpião, a Lira e o Cisne.

Outras constelações são menos evidentes, mas existem técnicas simples e práticas para localizar facilmente todas as constelações e identificar imensas estrelas.

E os planetas? Eles mudam de posição em relação às constelações, mas as suas posições podem ser obtidas em http://www.platanoeditora.pt/?q=C/BOOKSSHOW/7595.

Guilherme de Almeida
© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva 

domingo, 30 de março de 2014

DD - Documentários ao Domingo: O que nos falta para viajar até outras estrelas?

Viajar até outros sistemas estelares é um dos sonhos de alguns homens desde as primeiras histórias que evocavam outros mundos, textos escritos por clarividentes autores gregos e romanos, quando a maior parte da Humanidade ainda nem suspeitava da existência de outros planetas.

Do sonho à realidade

Esse sonho foi alimentado pela literatura de ficção e posteriomente a de ficção-científica. A palavra foi inventada nos anos 1920 pelo americano de origem luxemburguesa Hugo Gernsback, editor da revista Amazing Stories, e que na sua publicação deu a sua primeira oportunidade a jovens autores como H. P Lovecraft, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Robert A. Heinlein, entre muitos outros.

Mas em 1961, depois do russo Yuri Gagarine se ter tornado o primeiro ser humano a viajar no espaço e de a corrida espacial ter realmente começado como um despique entre Estados Unidos e URSS, esse sonho transformou-se num objectivo.

Onde já chegámos 

Hoje, mais de 50 anos depois, apenas um círculo restrito de 600 seres humanos viajaram até ao espaço.

A nível internacional poucos países investem em agências espaciais nacionais, e destas apenas quatro puseram homens no espaço: a agência norte-americana Nasa, a agência russa Roskosmos, a agência europeia ESA e a chinesa CNSA.

O lugar mais longíquo até onde o Homem chegou foi a Lua, o nosso próprio satélite.

Onde queremos chegar 

O planeta mais próximo do nosso, Vénus, é um destino que não está, para já, no nosso itinerário de viagens tripuladas por ser um mundo mergulhado em chamas perpétuas e por isso inóspito ao Homem.

Marte, o segundo mais próximo, parece mais acolhedor. Com uma atmosfera 150 vezes menos densa que a da Terra, para aí viver o Homem terá que criar habitats próprios.

O que falta

Mas o que nos falta técnica, tecnologica e financeiramente para tornarmos as viagens interestelares uma realidade?

Melhor do que dissertar sobre a falta de interesse de potenciais investidores, dos limites das tecnologias actualmente existentes ou das que estão neste momento a ser inventadas e que nos permitiriam alcançar esse objectivo num futuro próximo, pensámos que apresentar-vos um documentário do canal National Geographic seria mais interessante e esclarecedor.

Partindo de uma premissa fictícia - que a Terra tem que ser evacuada dentro de 75 anos, ameaçada por um pulsar - a equipa do canal National Geographic entrevista físicos, astrónomos e engenheiros espaciais e explora as possibilidades reais, a curto e médio prazo, de viajarmos para fora do nosso planeta se realmente o tivéssemos que fazer.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Os asteróides também podem ter anéis

Imagem: ESO
Observações obtidas em diversos locais da América do Sul, incluindo o Observatório de La Silla do ESO (Observatório Europeu do SUL), levaram à descoberta surpreendente de que o asteróide distante Chariklo se encontra rodeado por dois anéis densos e estreitos.

Este é o menor objecto já descoberto com anéis, e apenas o quinto corpo no sistema solar - depois dos planetas gigantes Júpiter, Saturno, Urano e Neptuno - com esta caraterística.

A origem dos anéis permanece um mistério, no entanto pensa-se que podem ser o resultado de uma colisão que criou um disco de detritos. Os novos resultados serão publicados online na revista Nature.

Além dos anéis de Saturno, que são um dos mais bonitos espectáculos no céu, outros anéis, menos proeminentes, também foram encontrados em torno dos outros planetas gigantes. Apesar de buscas cuidadosas, nunca se encontraram anéis em volta de outros objectos menores do sistema solar. Agora, observações do longínquo asteroide Chariklo, feitas quando este passava em frente a uma estrela, mostraram que este também se encontra rodeado por dois anéis estreitos.

“Não estávamos à procura de anéis, nem pensávamos que pequenos corpos como o Chariklo os poderiam ter, por isso esta descoberta - e a quantidade extraordinária de detalhes que obtivemos do sistema - foi para nós uma grande surpresa!”, diz Felipe Braga-Ribas (Observatório Nacional/MCTI, Rio de Janeiro, Brasil), que preparou a campanha de observações e é o autor principal do novo artigo científico que descreve estes resultados.

Chariklo é o maior membro de uma classe de asteróides conhecidos por Centauros, que orbitam o Sol entre Saturno e Urano, no sistema solar externo. Previsões da sua órbita mostraram que passaria em frente da estrela UCAC4 248-108672 no dia 3 de junho de 2013, quando observado a partir da América do Sul.

Assim, com o auxílio de telescópios em sete sítios diferentes, incluindo o telescópio dinamarquês de 1,54 metros e o telescópio TRAPPIST, ambos situados no Observatório de La Silla do ESO, no Chile, os astrónomos puderam observar a estrela desaparecer durante alguns segundos, momento em que a sua luz foi bloqueada pelo Chariklo - num fenómeno conhecido por ocultação. No entanto, acabariam por descobrir muito mais do que esperavam.

Alguns segundos antes, e também alguns segundos depois, da ocultação principal ainda houve duas quedas de luz, ligeiras e muito curtas, no brilho aparente da estrela. Algo em torno de Chariklo estava a bloquear a luz! Ao comparar as observações feitas nos diversos locais, a equipa pôde reconstruir não apenas a forma e o tamanho do objecto propriamente dito, mas também a espessura, orientação, forma e outras propriedades dos anéis recém-descobertos.

A equipa descobriu que o sistema de anéis é composto por dois anéis bastante confinados, com apenas sete e três quilómetros de largura, respectivamente, separados entre si por um espaço vazio de nove quilômetros - e tudo isto em torno de um pequeno objecto com 250 quilómetros de diâmetro que orbita além da órbita de Saturno. “Acho extraordinário pensar que fomos capazes de detectar, não apenas o sistema de anéis, mas também precisar que este sistema é constituído por dois anéis claramente distintos”, acrescenta Uffe Gråe Jorgensen (Instituto Niels Bohr, Universidade de Copenhaga, Dinamarca), que também pertence à equipa. “Tento imaginar como será estar na superfície deste corpo gelado - tão pequeno que um carro desportivo veloz poderia atingir uma velocidade suficientemente para se lançar no espaço - e olhar para cima para um sistema de anéis com 20 quilómetros de largura e situado mil vezes mais próximo do que a Lua está da Terra”.

Embora muitas questões permaneçam ainda sem resposta, os astrónomos pensam que este tipo de anel deve ter-se formado a partir dos restos deixados depois de uma colisão. Os restos teriam ficado confinados como dois estreitos anéis devido à presença de pequenos satélites, que supostamente existirão. “Por isso, além dos anéis, é provável que Chariklo tenha também, pelo menos, um pequeno satélite à espera de ser descoberto”, acrescenta Felipe Braga Ribas.

Os anéis poderão mais tarde dar origem à formação de um pequeno satélite. Tal sequência de eventos, a uma escala muito maior, pode explicar a formação da nossa própria Lua nos primeiros tempos do sistema solar, assim como a origem de muitos outros satélites em órbita de planetas e asteróides. Os líderes do projecto deram aos anéis os nomes informais de Oiapoque e Chuí, dois rios que se encontram próximos dos extremos norte e sul do Brasil, respectivamente.

Fonte: ESO 

(Este artigo também foi publicado no site CONTACTO.lu)