sábado, 1 de agosto de 2015

Descoberto exoplaneta rochoso a 21 anos-luz da Terra, HD219134b

Exoplaneta HD219134b Foto: Nasa
Os astrónomos da missão Spitzer (telescópio Spitzer) descobriram na quinta-feira um exoplaneta parecido com a Terra a apenas a 21 anos-luz de distancia de nós, o exoplaneta HD219134b.

O exoplaneta foi descoberto em órbita da estrela HD 219134, uma anã vermelha-alaranjada bastante brilhante, que os cientistas já conheciam e que pode ser vista a olho nu da Terra.

O exoplaneta HD219134b.  que se situa visto da Terra na constelação de Cassiopeia, tem uma órbita mais pequena (3 dias) do que as suas tres companheiras. O planeta é 1,6 vezes maior do que a Terra, com uma massa 4,5 vezes maior. A temperatura na superficie é calculada em 427 graus Celsius. Os astrónomos pensam por isso que o planeta está a atravessar uma intensa actividade vulcanica, com rocha em fusão e ou formacao. Dadas estas caracteristicas, e apesar de se situar na zona habitavel da sua estrela, este planeta nao deve conter água nem vida. Pelo menos, vida como a conhecemos.

Já foram descobertos outras super-Terras e exoplanetas rochosos, mas este passou a ser a partir desta semana o que está mais proximo da Terra, e pode por isso tornar-se alvo de estudo dos cientistas

O sistema planetario tem mais duas super-Terras e um planeta gigante. Uma das super-Terras pesa 2,7 vezes mais que a Terra e orbita a sua estrela em 6,8 dias. A outra é 8,7 vezes mais pesada que o nosso planeta, com uma orbita de 47 dias. O planeta gigante pesa 64 vezes mais que a Terra e tem uma orbita de tres anos em torno da sua estrela.

As super-Terras tem mais massa que o nosso planeta, mas são mais leves que gasosos como Neptuno, Saturno ou Jupiter, ou seja, podem ser constituidos por gás, rocha ou ambos.


A estrela HD 219134, também chamada HR 8832) (no círculo) situa-se junto ao "W" da constelação de Cassiopeia Foto: Nasa

sábado, 25 de julho de 2015

Novas imagens da sonda New Horizons revelam que Plutão está coberto por uma névoa

Foto: Nasa
A agência espacial norte-americana NASA divulgou na madrugada deste sábado novas imagens de Plutão captadas pela sonda "New Horizons" que revelam que o planeta-anão está coberto por uma bruma.

A sonda, que passou perto do desconhecido Plutão na semana passada, numa missão que arrancou há quase uma década, continua a enviar informação para a equipa da NASA. A equipa diz que até agora só analisou 5% de todo o conteúdo gravado pela sonda na sua viagem de nove anos pelo Sistema Solar até Plutão.

Depois de cadeias de montanhas e vastas planícies geladas, as novas imagens revelam vapores que se elevam até 130 km na atmosfera do planeta, com duas camadas distintas, uma a 80 km de altitude e outra a 50 km de altitude.

"Esses vapores são essenciais para criar hidrocarbonetos e são os responsáveis pela cor avermelhada da superfície do planeta", explicou Michael Summers, um dos cientistas da Nasa.

A norte de uma região baptizada "Sputnik Planum" (do tamanho do estado do Texas), as imagens mostram também sinais de movimentos de placas de gelo na superfície. Placas de gelo que não são constituídas por água, mas por azoto, metano e monóxido de carbono.

"As nossas expectativas foram mais que superadas. Com gelo (de metano e azoto) solto, uma substância exótica na sua superfície, cordilheiras e uma ampla bruma, Plutão está a mostrar uma diversidade verdadeiramente emocionante de geologia planetária", disse em comunicado John Grunsfeld, um dos directores-adjuntos da NASA.

Conhecer melhor a Cintura de Kuiper

A sonda New Horizons vai continuar a enviar dados até 2016.

Neste momento, a sonda está para além da órbita de Plutão, e vai estudar mais amplamente a Cintura de Kuiper.

A Cintura de Kuiper é a regio do espaço que vai desde a órbita de Neptuno até aos confins do Sistema Solar. Os astrónomos acreditam que nesta região existam mais de 100 mil pequenos corpos celestes. Destes, são conhecidos 12 com diâmetro de quase ou mais de 1000 km. Há inclusive um, Éris, com maior massa que Plutão, apesar de ser ultrapassado em volume, segundo as novas medições da New Horizons.

Além de Plutão e Éris, os outros 10 corpos celestes conhecidos nesta região são: Charon, Makemake, Haumea, Sedna, Orco, 2007 OR10, Quaoar, Ixion, Varuna e 2002 AW197.


Esta notícia foi também publicada no site do CONTACTO 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Kepler 452b é exoplaneta mais parecido com a Terra encontrado até hoje

O planeta Kepler-452b é 60% maior do que a Terra Foto: NASA
 A NASA anunciou na quinta-feira a descoberta do primeiro exoplaneta (planeta que se encontra fora do nosso Sistema Solar) que orbita a zona habitável de uma estrela similar ao nosso Sol, o que a torna o primeiro candidato sério para acolher vida.

"O planeta Kepler-452b é 60% maior do que a Terra, o que faz com a gravidade na superfície deverá ser duas vezes maior do que no nosso planeta", explicou Jon Jenkins, um dos responsáveis da missão Kepler.

O tamanho do planeta permite aos cientistas dizer que este é rochoso, provavelmente com uma atmosfera mais densa que a Terra e com uma importante concentração de vulcões activos. A distância à sua estrela permite ainda extrapolar que pode conter água no seu estado líquido.

O planeta recebe 10% mais energia da sua estrela do que a Terra do Sol, já que o astro que ilumina Kepler-452b é maior e mais velho que o nosso Sol e por isso emite mais brilho.

Kepler-452b que completa uma órbita em 385 dias (os anos so mais longos do que os nossos), é também mais antigo do que a Terra.

Kepler 452b situa-se a 1.400 anos-luz da Terra.

Até agora, o exoplaneta mais parecido com a Terra era Kepler-186f, mas que orbita uma estrela anã, mais fria que o nosso Sol.

Esta é uma imagem do que poderá ser o aspecto da superfície de Kepler-452b


sábado, 18 de julho de 2015

Descoberta estrela canibal no sistema binário Gaia14aae

Uma equipa de astrónomos descobriu um sistema estelar binário (duas estrelas) onde uma está a "comer" a outra, uma observação cheia de promessas para a compreensão da morte das estrelas - anunciou a Universidade de Cambridge, na sexta-feira.

"É a primeira vez que observamos uma estrela-anã branca super densa a roubar o gás de seu binómio ao canibalizá-la", explicou a universidade, responsável pelo estudo.

O sistema binário, baptizado Gaia14aae, está situado a cerca de 730 anos-luz na constelação de Draco (Dragão). Observadas pelo satélite Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), em Agosto de 2014, as duas estrelas tornaram-se cinco vezes mais brilhantes num espaço de 24 horas.

Para os astrónomos, a luminosidade repentina ocorreu quando a anã branca - tão densa que em comparação uma colher de café da sua matéria teria a massa de um elefante - começou a devorar a sua companheira, maior do que ela.

Os efeitos gravitacionais da anã branca muito densa são tão fortes que forçam a sua companheira a se aproximar dela. Além do lado curioso, o Gaia14aae é um sistema binário de eclipses. O plano de revolução dos dois astros está sensivelmente alinhado com a Terra e as duas estrelas eclipsam-se mutuamente quase a cada 50 minutos.

"É muito raro vermos um sistema binário tão bem alinhado", declarou a pesquisadora Heather Campbell, do Instituto de Astronomia de Cambridge. "Assim, podemos observar este sistema estelar com grande precisão e compreender melhor como é feito e como evoluiu", garantiu. Os astrónomos ainda não sabem se a estrela-anã vai devorar completamente a sua companheira ou se as duas vão provocar uma supernova, uma gigantesca explosão que marcará a morte de ambas.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Astronautas da ISS refugiaram-se durante uma hora por perigo de colisão com lixo espacial

Foto: NASA
Três astronautas da Estação Espacial Internacional (EEI) refugiaram-se, esta quinta-feira, durante quase uma hora, perante receios de uma colisão dos destroços de um antigo satélite russo à deriva no espaço, que não se concretizou, informou a NASA.

Os restos do antigo satélite meteorológico aproximavam-se da ISS à velocidade de mais de 12,8 quilómetros por segundo, pelo que foi comunicado aos três astronautas para procurarem refúgio.

Os astronautas refugiaram-se na nave Soyuz, amarrada à ISS, preparados para abandonar a estação perante uma possível colisão, que não ocorreu, pelo que ao fim de uma hora, os três homens puderam regressar. “Os restos do satélite russo passaram ao largo da Estação Espacial Internacional de forma segura.

Foi ordenado à tripulação o regresso à ISS”, disse a NASA na sua conta da rede social Twitter. Os três astronautas a bordo da ISS são o norte-americano Scott Kelly e os russos Mikhail Kornienko e Gennady Padalka.

Esta foi a quarta vez em 15 anos em que a ISS accionou este procedimento de precaução, indicou a NASA, que estima a existência de cerca de 500 mil pedaços de detritos espaciais que possam representar uma ameaça para naves como a ISS.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

As maiores explosões no Universo são despoletadas pelos ímanes mais potentes


Observações obtidas nos Observatórios de La Silla e Paranal no Chile demonstraram pela primeira vez que existe uma ligação entre uma explosão de raios gama de longa duração e uma explosão de supernova invulgarmente brilhante.

Os resultados mostram que a supernova não teve origem em decaimento radioactivo, como se esperava, mas sim em campos magnéticos muito fortes a decair em torno de um objecto exótico conhecido por estrela magnética. Os resultados foram publicados no dia 9 de Julho na revista Nature.

As explosões de raios gama constituem um dos eventos associados às maiores explosões que ocorreram desde o Big Bang. São detectadas por telescópios em órbita sensíveis a este tipo de radiação altamente energética, a qual não consegue penetrar a atmosfera terrestre, e são igualmente observadas a maiores comprimentos de onda por outros telescópios, situados tanto no espaço como no solo.

As explosões de raios gama duram tipicamente alguns segundos, mas em casos muito raros podem prolongar-se durante horas. Uma destas explosões de longa duração foi captada pelo satélite Swift a 9 de Dezembro de 2011 e baptizada com o nome de GRB 111209A. Foi simultaneamente uma das mais longas e mais brilhantes explosões de raios gama alguma vez observada.

À medida que o brilho remanescente da explosão ia desaparecendo, o evento foi estudado pelo instrumento GROND montado no telescópio MPG/ESO de 2,2 metros em La Silla e pelo instrumento X-shooter no Very Large Telescope (VLT) no Paranal.

Foi encontrada uma assinatura clara de uma supernova, chamada mais tarde SN 2011kl. Esta é a primeira vez que uma supernova é descoberta associada a uma explosão de raios gama de muito longa duração.

O autor principal do novo artigo científico que descreve estes resultados, Jochen Greiner do Max-Planck-Institut für extraterrestrische Physik, Garching, Alemanha, explica: “Uma vez que apenas uma explosão de raios gama de longa duração é produzida para cada 10 mil - 100 mil supernovas, a estrela que explodiu deve ser de algum modo muito especial. Os astrónomos pensavam que estas explosões de raios gama tinham origem em estrelas muito massivas — cerca de 50 vezes a massa do Sol — e que assinalavam a formação de um buraco negro. No entanto, as nossas novas observações da supernova SN 2011kl, descoberta após a GRB 111209A, estão a modificar este paradigma relativamente às explosões de raios gama de muito longa duração.”

Num cenário favorável do colapso de uma estrela massiva, espera-se que a intensa emissão óptica/infravermelha da supernova, com duração de cerca de uma semana, venha do decaimento do níquel-56 radioactivo formado durante a explosão.

No entanto, no caso da GRB 111209A as observações combinadas do GROND e do VLT mostraram sem ambiguidades, e pela primeira vez, que isto não era o que se passava. A única explicação que justifica as observações da supernova que segue a GRB 111209A é que esta terá tido origem numa estrela magnética— uma estrela de neutrões minúscula que gira centenas de vezes por segundo e que possui um campo magnético muito mais potente que as estrelas de neutrões normais, as quais são também conhecidas por pulsares rádio. Pensa-se que as estrelas magnéticas são os objectos mais magnetizados no Universo conhecido.

Esta é a primeira vez que uma ligação clara entre uma supernova e uma estrela magnética foi identificada.

Paolo Mazzali, co-autor do estudo, reflecte sobre o significado desta nova descoberta: “Estes resultados fornecem provas de uma relação inesperada entre explosões de raios gama, supernovas muito brilhantes e estrelas magnéticas. Já há alguns anos que suspeitávamos de algumas destas relações do ponto de vista teórico, mas conseguir ligar tudo isto é realmente um desenvolvimento muito interessante.”

“O caso da SN 2011kl/GRB 111209A obriga-nos a considerar alternativas ao cenário de uma estrela em colapso. Estes resultados aproximam-nos de ideias novas e muito mais claras sobre o funcionamento das explosões de raios gama,” conclui Jochen Greiner.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Russo bate recorde de permanência no espaço: 803 dias

O cosmonauta Gennady Padalka 

O astronauta russo Guennadi Padalka, comandante da Estação Espacial Internacional (ISS), tornou-se no homem que mais tempo passou no espaço com um total de 803 dias, informou à AFP a agência espacial russa. "O recorde é oficial", afirmou o porta-voz da Roscosmos.

Padalka, de 57 anos, realiza sua quinta missão no espaço, e bateu na segunda-feira, 30 de Junho, o recorde que pertencia anteriormente a outro cosmonauta russo, Serguei Krikalev, de acordo com a imprensa russo.

No seu regresso à Terra, prevista para 11 de Setembro, Padalka terá passado mais de 877 dias no espaço, ou seja, dois anos e quatro meses.

Já em 1998, Padalka tinha passado 199 dias na estação russa Mir. Em 2004, 2009 e 2012 ficou na ISS e, em Março último, voltou à ISS na companhia do seu compatriota Mikhail Kornienko e do americano Scott Kelly.

Krikalev, que detinha o recorde de permanência no espaço até agora, foi apelidado de "o último cidadão da URSS" porque voltou à Terra em Dezembro de 1991, depois da queda da União Soviética.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Cientistas portugueses baptizam nova galáxia CR7, inspirados em Cristiano Ronaldo

Foto: ESO
Com o auxílio do Very Large Telescope (VLT) do ESO os astrónomos descobriram a galáxia mais brilhante observada até hoje no Universo primordial e encontraram provas fortes de que este objecto contém estrelas da primeira geração.

Estas estrelas massivas e brilhantes, puramente teóricas até agora, foram as criadoras dos primeiros elementos pesados na história — os elementos necessários à formação das estrelas que nos rodeiam actualmente, os planetas que as orbitam e a vida tal como a conhecemos.

A galáxia recentemente descoberta chamada CR7 (COSMOS Redshift 7) é três vezes mais brilhante do que a galáxia distante mais brilhante que era conhecida até agora. O nome foi inspirado no jogador de futebol português, Cristiano Ronaldo, que é conhecido por CR7.

Os astrónomos desenvolveram há muito a teoria da existência de uma primeira geração de estrelas - conhecidas por estrelas de População III — que teriam nascido do material primordial do Big Bang. Todos os elementos químicos mais pesados — como o oxigénio, azoto, carbono e ferro, que são essenciais à vida — formaram-se no interior das estrelas, o que significa que as primeiras estrelas se devem ter formado dos únicos elementos que existiam antes delas: hidrogénio, hélio e traços mínimos de lítio.

Estas estrelas de População III seriam enormes — várias centenas ou mesmo milhares de vezes mais massivas do que o Sol — extremamente quentes e transientes — e explodiriam sob a forma de supernovas após cerca de apenas dois milhões de anos. No entanto, e até agora, a busca de provas físicas da sua existência tinha-se revelado infrutífera.

Uma equipa liderada por David Sobral, do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço, Universidade de Lisboa, e do Observatório de Leiden, Holanda, utilizou o VLT para observar o Universo primordial, no período conhecido por época da reionização, que ocorreu cerca de 800 milhões de anos após o Big Bang. Em vez de fazer um estudo profundo e direccionado a uma pequena área do céu, a equipa alargou o seu foco de estudo e produziu o maior rastreio de galáxias muito distantes alguma vez obtido.

Com a descoberta da CR7 e outras galáxias brilhantes, o estudo era já um sucesso, no entanto a investigação posterior produziu mais resultados ainda melhores. Com o auxílio dos instrumentos X-shooter e SINFONI montados no VLT, a equipa encontrou uma forte emissão de hélio ionizado na CR7 mas — crucial e surpreendentemente — nenhum traço de elementos mais pesados no seio da galáxia brilhante, o que constitui uma forte evidência da existência de enxames de estrelas de População III com gás ionizado, no seio de uma galáxia do Universo primordial.

“A descoberta superou, desde o início, todas as nossas expectativas,” disse David Sobral, “uma vez que não esperávamos encontrar uma galáxia tão brilhante. Seguidamente ao desvendarmos pouco a pouco a natureza da CR7, percebemos que não só tínhamos descoberto a galáxia distante mais brilhante conhecida até agora, como também que este objecto tinha todas as características que se esperam de estrelas de População III. Estas estrelas são as que formaram os primeiros átomos pesados que, em última análise, são os que nos permitem aqui estar. Este estudo revelou-se extremamente interessante.”

Jorry Matthee, segundo autor do artigo científico que descreve estes resultados, conclui: “Sempre me perguntei de onde é que nós vimos. Mesmo quando era pequeno queria saber donde vinham os elementos químicos: o cálcio dos meus ossos, o carbono dos meus músculos, o ferro do meu sangue. Descobri que estes elementos foram formados inicialmente no início do Universo, pela primeira geração de estrelas. Com esta descoberta estamos a ver, de facto, tais objectos pela primeira vez.” 


sábado, 6 de junho de 2015

Sonda euro-japonesa BepiColombo que vai estudar Mercúrio em 2024 tem tecnologia portuguesa


A sonda BepiColombo, cujo lançamento está previsto para Janeiro de 2017 e que tem como objectivo estudar Mercúrio, numa missão euro-nipónica, tem tecnologia portuguesa, da empresa Active Space Technologies.

A empresa lusa concebeu a mecânica e o isolamento térmico de um dos instrumentos. A Active Space Technologies, multinacional portuguesa especialista em tecnologia aeroespacial, esteve envolvida na concepção da estrutura do espectrómetro (instrumento óptico para medir as propriedades da luz numa determinada faixa do espectro electromagnético) que permitirá fazer a análise dos níveis de sódio da atmosfera do planeta.

O gestor de projectos da empresa, João Ricardo, explicou que foram usados materiais como alumínio e titânio para que o instrumento seja, ao mesmo tempo, leve e resistente, "sobreviva ao período de lançamento" e a "ciclos térmicos muito abruptos".

A sonda BepiColombo é um projecto das agências espaciais europeia ESA e japonesa JAXA e é composta por dois módulos, o Orbitador Planetário de Mercúrio, de desenho europeu, e o Orbitador Magnetosférico de Mercúrio, de concepção nipónica.

O espectrómetro em cuja construção a Active Space Technologies, com sede em Coimbra, participa é um dos cinco instrumentos que compõem o Orbitador Magnetosférico de Mercúrio. Enquanto o Orbitador Planetário de Mercúrio, que vai estar mais próximo do planeta, vai examinar a sua superfície, o Orbitador Magnetosférico de Mercúrio, numa órbita mais excêntrica, vai estudar a magnetosfera.

A missão BepiColombo, assim designada em homenagem ao cientista italiano Giuseppe (Bepi) Colombo (1920-1984), que desenvolveu estudos sobre Mercúrio, é a primeira missão europeia ao planeta mais pequeno e mais próximo do Sol.

A nova data de lançamento foi apontada para 27 de Janeiro de 2017. O custo da missão está estimado em 1.200 milhões de euros. A agência espacial europeia, da qual Portugal é um dos países-membros, espera que a sonda chegue a Mercúrio em Janeiro de 2024 e explore o planeta durante pelo menos um ano terrestre (o equivalente a quatro anos mercurianos), enfrentando temperaturas que podem exceder os 350ºC.

A agência espacial norte-americana NASA teve a sonda Messenger na órbita de Mercúrio durante quatro anos, mas esta chegou ao fim da sua vida no final de Abril de 2015. Ler mais aqui

domingo, 31 de maio de 2015

Bas Lansdorp (Mars One), o holandês que quer enviar humanos para Marte

O holandês Bas Lansdorp é co-fundador e administrador da Mars One, empresa que planeia enviar humanos para Marte a partir de 2027 Foto: Manuel Dias
O holandês Bas Lansdorp é co-fundador e administrador da Mars One, empresa que planeia enviar humanos para Marte a partir de 2027.

Ao CONTACTO concedeu a única entrevista no Luxemburgo. Bas Lansdorp é formado em Engenharia Mecânica pela Universidade de Twente (Holanda). Trabalhou entre 2003 e 2008 na Universidade de Tecnologia de Delft. Em 2008, criou uma empresa onde desenvolveu um novo método de gerar energia eólica, companhia que vendeu em 2011 para criar a Mars One.

CONTACTO: Porque razão quis criar um projecto que está a tentar enviar humanos para Marte? 

Bas Lansdorp: Lancei este projecto porque eu próprio quero ir a Marte. Penso que ir a Marte vai ser dos feitos mais importantes que a Humanidade vai fazer no século XXI. Não importa se é a Mars One que vai fazê-lo ou outros. Daqui a 500 ou mil anos, quando as crianças estudarem o século XXI, vão aprender que este foi o século em que a Humanidade começou a instalar-se noutros planetas. Não vão estudar que facções estavam em guerra na Síria ou a crise económica, vão aprender os feitos importantes da Humanidade e a chegada a Marte vai ser uma delas.

CONTACTO: Portanto, você estaria disposto a ir para Marte? 

B.L.: Sim, claro que quero. Não nas primeiras viagens, porque não sou qualificado para o fazer, mas nas missões posteriores. Sou teimoso, impaciente e aborreço-me com facilidade, o que são boas qualidades para um empresário. Por exemplo, estou aborrecido que ninguém esteja a organizar missões para Marte, por isso vou eu fazê-lo. Mas estas são péssimas qualidades para fazer parte da primeira missão, porque a primeira equipa vai ter apenas quatro pessoas, que vão ter que viver num ambiente muito condicionado durante dois anos até chegar a segunda equipa. Talvez mais tarde eu possa ir e levar a minha família. Aliás, se não tivesse família eu ia já na primeira missão. O facto de ser uma viagem só de ida não é de todo um problema para mim. Ir para Marte é comparável às pessoas, entre eles muitos portugueses, que há 100 anos emigravam para a América ou para a Austrália e que nunca regressaram.

CONTACTO: Dos 200 mil candidatos que se inscreveram para integrar o projecto em 2013 quantos ainda estão em liça? 

B.L.: Em Abril de 2013 abrimos as inscrições, recebemos 200 mil candidaturas. Em Janeiro de 2014 reduzimos o número de candidatos para mil, depois para 700 e em Fevereiro último seleccionámos 100 pessoas de 35 países: 50 homens e 50 mulheres, 39 americanos, 31 europeus, 16 asiáticos, sete africanos e sete da Oceânia. Têm entre 19 e 60 anos, 48 têm entre 26 e 35 anos. Penso que já não há portugueses na lista, mas também já não há holandeses. Em Julho anunciaremos as seis equipas finais, de quatro elementos cada, dois homens e duas mulheres.

CONTACTO: Que qualidades devem ter os candidatos? Têm que ter formações específicas em engenharia, medicina, agricultura...? 

B.L.: Têm de estar de boa saúde, ser inteligentes, porque vão ter que aprender novas competências. Uma das qualidades que mais procuramos é o espírito de equipa. Têm que ser pessoas que funcionam ao seu máximo integrados num grupo. Queremos enviar os melhores para Marte, mas sobretudo as melhores equipas, que têm de trabalhar e conviver juntas, e sobreviver a qualquer situação difícil. As suas vidas vão depender dos outros membros da equipa. Consideramos que ter conhecimentos em medicina, engenharia ou agricultura – para cultivar lá a sua própria comida – são menos importantes neste momento, porque são competências que lhes podemos ensinar. Temos 10 anos para o fazer. A primeira missão tripulada está planeada para 2027, em dez anos alguém pode formar-se em engenharia e depois em medicina.

Depois, as competências em engenharia que procuramos não são forçosamente as que uma pessoa aprendeu na universidade. Não queremos alguém que desenhe um novo sistema de suporte de vida, mas alguém que saiba trabalhar com o sistema que vamos enviar, consiga perceber a avaria e que componente trocar para a consertar. Na verdade, um canalizador com uma experiência de cinco anos, que até perceba de electricidade, e que só não foi para a universidade porque a família não tinha recursos, para nós é um candidato mais adaptado para este trabalho do que alguém com um doutoramento em Física Teórica.

"Ainda há 100 candidatos em liça para ir colonizar Marte, de 35 países diferentes."
Foto: Manuel Dias

CONTACTO: Porque diz que ninguém está a trabalhar para enviar missões tripuladas para Marte? A Nasa está a fazer simulações de missões em Marte no deserto do Utah. A Nasa, os europeus (ESA), os russos e até os chineses tem missões para Marte agendadas para daqui a 20 anos. 

B.L.: As agências espaciais dizem que querem enviar missões para Marte daqui a 20 anos e algumas, como a Nasa, já o dizem há 45 anos. O problema é o mesmo para todos: é a missão de regresso, que é algo complexo e que até agora ninguém conseguiu resolver. Chegar a Marte não é um problema, o que é complicado é fazer regressar a tripulação. Seria preciso construir lá uma base de lançamento o que é muito difícil... Nós resolvemos eliminar essa parte da equação. Sem o problema do regresso, podemos concentrar-nos em todos os elementos para montar uma colónia em Marte que consiga auto-sustentar-se e criar as condições para a ida de mais pessoas.

CONTACTO: Ao mesmo tempo as agências espaciais criticam muito o seu projecto... 

B.L.: Se o nosso projecto não fosse criticado isso significaria que não estaríamos a fazer nada de muito excitante ou desafiante.

CONTACTO: Se bem percebi, a viagem de ida não é um problema, quer dizer que a tecnologia já existe? 

B.L.: Neste momento não é preciso inventar nada novo para enviar seres humanos para Marte. Tudo o que precisamos, como um sistema de aterragem ou um sistema de suporte de vida, já existe.

CONTACTO: Já resolveram a questão de como sustentar quatro tripulantes durante sete meses, que é o tempo que dura a viagem? 

B.L.: Os tripulantes vão consumir comida desidratada, cerca de 60 gramas por dia. A matemática é simples: 60 gramas a multiplicar por quatro pessoas, a multiplicar por 200 dias, ou seja, são necessários 500 kg em comida. Os astronautas da estação espacial internacional (ISS) ficam cerca de seis meses no espaço, por isso...

"Quero desepenhar um papel na chegada a Marte".


CONTACTO: Sim, mas a ISS é aprovisionada regularmente desde a Terra... 

B.L.: Mas a nossa nave já vai transportar todo o oxigénio e comida necessária, isso não vai ser um problema. As reservas de água vão funcionar como na ISS (a água que os astronautas consomem provém da sua própria urina filtrada e purificada, ndR). Os maiores desafios estão em Marte. Os sistemas de suporte de vida vão ser testados na Terra e deverão funcionar lá também. Os fatos dos astronautas é outra questão. A gravidade, a atmosfera, a areia e o pó de Marte não são como aqui na Terra, por isso não sabemos como os fatos vão funcionar e a velocidade do seu grau de usura.

CONTACTO: Um estudo do MIT (Massachusetts Institute of Technology) diz que o que vocês planeiam em Marte não é viável: não se sabe se é possível extrair água do gelo que existe no subsolo marciano e ter plantas num habitat fechado para a renovação do oxigénio é demasiado perigoso, porque é um ambiente inflamável e mesmo explosivo... 

B.L.: Ao contrário do que muitos jornalistas escreveram, depois de ter lido esse estudo, a nossa equipa não vai morrer ao fim de 68 dias em Marte. Assim que chegar, a equipa vai montar o sistema para fazer crescer a sua própria comida. Quanto à água, vamos testar a extracção de água nas primeiras missões robóticas. Se não funcionar, teremos que adiar o envio de seres humanos até resolver esse problema. A questão do oxigénio pode ser resolvida com o mesmo tipo de máquinas de oxigénio que todos os hospitais têm e que já é hoje utilizado para remover o dióxido de carbono na ISS.



CONTACTO: Com que empresas estão a trabalhar? 

B.L.: A Lockheed Martin (que constrói os foguetões da Nasa, ndR) está a trabalhar nas nossas missões não tripuladas, previstas para 2020, e deverá também conceber o sistema de aterragem das missões de transporte a enviar em 2024. A Paragon Space está a trabalhar nos sistemas de suporte de vida e nos fatos dos astronautas. Mas há muito mais empresas a trabalhar connosco.

CONTACTO: A primeira equipa que vai para Marte é composta por dois homens e duas mulheres. Vocês incentivam-nos ou desaconselham-nos a envolver-se sentimental e sexualmente uns com os outros? 

BL.: Cada equipa vai ter quatro pessoas, que já a partir de 2016 vão ser colocadas em simuladores habitacionais em zonas desérticas para simular a estadia em Marte...

CONTACTO: Já agora, onde vão ser esses simuladores? No Utah, onde a Nasa está fazer as suas simulações para Marte, ou na Islândia, que dizem ter um relevo muito parecido com o de Marte? 

B.L.: Ainda não posso revelar onde vai ser... Mas, respondendo à outra pergunta, note que os candidatos vão fazer parte da mesma equipa durante 10 anos. É muito irrealístico pensar que não se vão envolver sentimentalmente. Mas ao mesmo tempo, penso que é uma má ideia enviar casais para Marte, porque se o casal acabar pode quebrar a dinâmica da equipa. Temos que avaliar como cada um gere as suas relações com a equipa e isso também determina se esse é o grupo certo para ir. O que não podemos fazer é tentar interferir na natureza humana.

CONTACTO: Pensa que esses casais se reproduzirão em Marte? 

B.L.: Penso que não. Quando um casal pensa em ter filhos reflecte em que ambiente este vai crescer. Nos primeiros tempos em Marte, a colónia ainda vai ser um local muito perigoso para uma criança. E os pais teriam que equacionar se a criança cresceria de forma normal num planeta em que a gravidade é mais reduzida do que na Terra...

CONTACTO: Seria o primeiro marciano... 

B.L.: Sim, até pode ser. Eu cá acho que o primeiro marciano vai ser um rato nascido num dos laboratórios que montaremos em Marte. Antes de qualquer criança nascer em Marte, teremos que estudar o processo de gestação e crescimento de um ser vivo naquele planeta. Se os humanos querem um dia ser uma espécie multi-planetária têm que se reproduzir noutros planetas, mas esse não é o objectivo do projecto Mars One.

CONTACTO: Para gerar dinheiro para o vosso projecto, estava previsto os candidatos participarem num reality-show na televisão, no qual veríamos como são preparados para Marte, tipo programa “Survivor”. Vocês até tinham um contrato com a Endemol, empresa holandesa que produz programas como o “Big Brother” ou “A Casa dos Segredos”...

B.L.: Bem, o nosso conceito mudou um pouco. Pensámos melhor e em 2016 vamos fazer uma série de documentários nos quais vamos mostrar o processo de formação e de selecção dos candidatos, e como vamos escolher os quatro elementos de cada uma das seis equipas finalistas.

CONTACTO: A Endemol terminou o contrato com a Mars One, como vão fazer para produzir a série? 

B.L.: Já temos contrato com outra produtora, mas ainda não posso revelar qual.

CONTACTO: Você deixou a empresa de energia eólica que fundou em 2008 para se dedicar inteiramente a este projecto em 2011. A empresa Mars One já gera dinheiro que chegue para pagar salários? 

B.L.: Quando me demiti, vendi as minhas partes na empresa e isso deu-me algum conforto financeiro, o que faz com que eu não tenha de me preocupar com dinheiro. Neste momento, consigo pagar cinco das dez pessoas que trabalham na Mars One e isso dá-me uma grande satisfação.



CONTACTO: Continuam à procura de colaboradores? 

B.L.: Temos milhares de pessoas de todo o mundo que se oferecem para colaborar connosco gratuitamente, para fazer traduções, escrever textos, técnicos de imagem, grafistas. Temos um formulário no nosso site no qual as pessoas se podem inscrever se quiserem colaborar. O perfil das pessoas que procuramos depende de futuros projectos da Mars One.

CONTACTO: A título pessoal, acredita em marcianos? 

B.L..: (risos) Não acredito em homenzinhos verdes, mas acredito que encontraremos vida microbiana em Marte, ou descobriremos que a vida já existiu naquele planeta. Quanto a vida inteligente no Universo, tenho a total convicção que existe. Pode ser num milhar ou em mil milhões de planetas, mas algo deve existir algures. Seria demasiado arrogante pensar que somos os únicos seres inteligentes do Universo.

CONTACTO: Já pensou no que vai fazer depois de finalizado o projecto de chegar a Marte? 

B.L.: Hoje tenho 38 anos e acho que este projecto vai ocupar o resto da minha vida. Para mim, Marte é apenas o próximo passo a dar na nossa expansão no sistema solar.

José Luís Correia 
in contacto.lu e Jornal CONTACTO (27/05/2015)

(Vídeo promocional da Mars One)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Irmãos Bogdanov no Luxemburgo: “Computadores quânticos vão pemitir-nos fazer viagens interestelares”


Igor (à esquerda) e Grichka (à direita) dizem que os seus últimos cálculos apontam para que o Universo seja redondo como uma bola de futebol a três dimensões
Foto: Guy Jallay
Os cosmólogos franceses Grichka e Igor Bogdanov estiveram no Luxemburgo pela primeira vez. Os irmãos gémeos, hoje com 65 anos, ficaram famosos nos anos 1980 pelo seu programa de televisão juvenil de vulgarização científica “Temps X”, que passava na televisão francesa.

Grichka é matemático e Igor é físico teórico, com doutoramentos feitos na Universidade de Borgonha. São também docentes na Universidade Megatrend de Belgrado (Sérvia). Ao CONTACTO e ao Luxemburger Wort concederam uma das únicas três entrevistas que deram no Grão-Ducado. A entrevista começou ao contrário, com os irmãos a fazerem a primeira pergunta e a quererem saber porque razão existia um jornal português no Luxemburgo.

Grichka e Igor Bogdanov (G. e I.B): Um jornal português? No Luxemburgo?

CONTACTO: Um quinto da população do Luxemburgo é portuguesa e se acrescentarmos também a lusófona chegamos a um quarto da população que fala português. 

G. e I.B: Oh, que interessante. Sabe, um dos nossos grandes amigos é português. É filho daquele realizador português que morreu recentemente...

CONTACTO: O Manoel de Oliveira?... 

G. e I.B: Sim, exactamente, somos grandes amigos do filho do Manoel de Oliveira, o José de Oliveira [trata-se de José Manuel Brandão Carvalhais de Oliveira, nascido em 1944, ndR].

CONTACTO/Luxemburger Wort: O vosso tema de predilecção é o Big Bang e o nascimento do Universo, aliás foi o tema de tese dos vossos doutoramentos. Mas nos vossos livros mais recentes têm vindo a defender uma nova teoria, a de que o Universo é redondo. Podem explicar-nos de forma simples? 

G. e I.B: A noção de Universo e da sua forma colocam-se hoje da mesma forma do que quando houve a discussão sobre se a Terra era plana ou redonda. Hoje em dia, a comunidade científica pensa que o Universo é plano, mas o meu irmão e eu afirmamos que é redondo. Neste tipo de conceito temos que pensar em três dimensões, porque vivemos num espaço que tem três dimensões: comprimento, largura e altura. Os resultados dos nossos cálculos, em matemática e em física teórica, fazem-nos concluir que o espaço é curvo. Trata-se de uma curvatura muito ligeira, muito atenuada, mas não obstante ela existe e é, além disso, positiva, ‘marginalmente positiva’, como dizemos em termos científicos. Se fosse negativa o Universo era um hiperbolóide. Mas é positiva. Por isso o Universo é redondo. Os últimos resultados científicos parecem dar-nos razão. Os dados conseguidos pelos satélites astronómicos WMAP [Nasa, ndR] e Planck [da Agência Espacial Europeia, ESA, ndR] – os últimos resultados do satélite Planck foram apresentados em Fevereiro – levam-nos a pensar que o Universo tem efectivamente três dimensões e que é portanto redondo e não plano.

Imagem do satélite WMAP, da Nasa, sobre a radiação cósmica de fundo, que mostra o Universo pouco tempo depois de nascer, ou seja, pouco tempo após o Big Bang (cerca de 380 mil anos depois do Big Bang)
Imagem: WMAP/Nasa


CONTACTO/LW: O Universo parece-se com uma bola de râguebi, como nas imagens da radiação cósmica de fundo que o satélite WMAP mostrou? 

G. e I. B.: (risos) Não! Eu diria que se parece mais com uma bola de futebol. Neste caso é o princípio da isotropia [propriedade de um sólido quando se expande de igual modo para todos os lados quando lhe é acrescentada energia térmica, ndR] que se aplica, e aqui é a forma esférica a preferida e não a elipsóide. Mas, atenção, quando dizemos que o Universo se parece mais com uma bola de futebol é relativo, porque na realidade o Universo tem três dimensões e a bola de futebol apenas duas.

CONTACTO/LW: Os cientistas dizem que o Big Bang, que deu origem ao Universo, aconteceu há 13,7 mil milhares de anos. É essa a idade do Universo ou é apenas o nosso horizonte cósmico, ou seja, não conseguimos ver além e por isso não sabemos se é mais antigo? 

G. e I. B.: Hoje conhecemos melhor a extensão do Universo no tempo do que no espaço. Temos uma visão menos precisa da sua extensão no espaço do que da sua extensão no tempo. Hoje, pensamos que o Universo tem cerca de 46 mil milhões de anos-luz de raio, pela sua acção de expansão, mas não temos bem a certeza, pode ser bem mais. Quanto à idade do Universo, temos uma ideia bem mais precisa. Em 2013, o satélite Planck demonstrou que o Universo tem cerca de 13,820 mil milhões de anos e que é portanto um pouco mais velho do que pensávamos, e que rondava os 13,7 mil milhões de anos. O que nos interessa a nós é o que havia antes do Big Bang [tema das suas teses de doutoramento, ndR]. Mas aí, entramos no mundo das hipóteses. Trata-se do instante de Planck, o momento em que o Universo nasceu. O que está antes desse instante está fora da realidade, desta realidade, fora do tempo. Aliás, o tempo nasceu nesse momento. Essa realidade existiu numa outra forma de tempo, um tempo imaginário, na acepção que os matemáticos dão à palavra “imaginário” [noção criada por René Descartes em 1637, ndR].

CONTACTO/LW: Vocês dizem que o Universo é feito de tal forma que é perfeito e que se for alterada a menor constante cosmológica, todo o Universo fica um caos, podia até nunca ter existido. Isso quer dizer que acreditam em Deus ou é uma conclusão matemática? 

G. e I. B.: É uma conclusão matemática. No entanto, já São Tomás de Aquino dizia que podemos ir para o ’Mistério Supremo’ através das vias da razão. Ou seja, mesmo não querendo ser religioso, o facto é que essas vias da razão nos levam em direcção da ideia de algo supremo. No entanto, nós temo-nos esforçado, em todos os nossos livros, em nunca falarmos directamente de Deus. Apenas constatamos que o Universo é ordenado.

CONTACTO/LW: Mas acreditam em Deus? 

G. e I.B.: Acreditamos no Deus de Einstein. Quando em 1936 um jovem reconheceu perguntou a Einstien se ele acreditava em Deus, este não lhe respondeu logo, mas prometeu-lhe escrever uma carta a responder, carta que é hoje mundialmente famosa. Na carta, Einstein diz que todos os que estudam de forma séria a Ciência vão acabar por compreender um dia que um espírito superior se manifesta nas leis do Universo. Quando Einstein diz isso está a pensar no espírito das leis, das leis da Física. A ordem a que obedecem as leis da Física reenvia para qualquer coisa que nós não definimos nos nossos livros, nem queremos, deixamos ao leitor o cuidado das suas próprias conclusões.

Igor (à esquerda) e Grichka (à direita) explicam que a informática quântica vai multiplicar por mil ou mesmo por um milhão o factor de aceleração do processamento de dados dos computadores
Foto: Guy Jallay

CONTACTO/LW: Foram convidados para vir ao Luxemburgo falar de computadores quânticos e da inteligência artificial. Concordam com o alerta feita pelo astrofísico Stephen Hawking sobre a inteligência artificial, que pode tornar-se um perigo para o Homem? 

G. e I.B.: Pode parecer que Hawking e outros cientistas estão alarmados pela emergência de grandes sistemas que aos poucos podem tornar-se desviantes em relação à mente humana. Estivemos com Hawking e perguntámos-lhe o que ele quis dizer. Ele explicou-nos que não teme tanto uma revolução a esse nível, mas que queria apenas chamar a atenção para os perigos que essa revolução pode causar. A Humanidade tem que entrar nesse novo mundo com precaução, mesmo se é um passo inevitável. Nós acreditamos que nunca a inteligência artificial será comparável à inteligência ou à consciência humanas. Com os computadores quânticos acederemos a uma inteligência artificial que terá capacidades fulgurantes e que poderá ter semelhanças com a consciência humana, mas nunca chegará a ser comparável com esta, nem constituirá um perigo para a Humanidade. Nos anos 1950, as pessoas também tinham medo do que os computadores poderiam fazer ao ser humano. Hoje vemos que aumentaram as nossas capacidades em termos de trabalho, de comunicação, a muitos níveis que eram inimagináveis há 60 anos. Vai passar-se o mesmo com a inteligência artificial, será uma nova ferramenta que nos permitirá dar o próximo passo na nossa evolução.

CONTACTO/LW: E quanto aos computadores quânticos, que ajudarão a desenvolver inteligência artificial, são já uma realidade? 

G. e I.B.: Há uma empresa canadiana que diz já produzir computadores quânticos, mas na realidade não são bem quânticos. Nós pensamos que essas novas máquinas serão uma realidade daqui a cinco ou dez anos.

CONTACTO/LW: Como é que um computador quântico funciona?

G. e I. B.: Enquanto um computador convencional funciona com bits, os quânticos vão funcionar com “qbits”, ou seja “quantum bits” (bits quânticos). Todos conhecemos o aspecto de um chip electrónico. Recentemente, estivemos num laboratório onde estão a construir um computador quântico e o cérebro dessa nova geração de computadores não são chips mas fotões, partículas sub-atómicas de luz. O que nós vimos tinha o aspecto de uma esfera num gás de partículas. Enquanto o processador de um computador convencional utiliza um código binário, no qual uma informação ou é 1 ou é zero, num computador quântico a informação pode ser 1 e zero ao mesmo tempo, e até zero e 1 sobre-posicionados, e mesmo mais, toda uma multiplicidade de sobreposição de estados que podem até ser um elemento sólido e uma onda ao mesmo tempo. Estas capacidades fenomenais vão permitir uma aceleração do tratamento da informação de dados que vai ser multiplicada por um factor de mil, 10 mil, 100 mil, um milhão. Se pedirmos a um computador actual para calcular a previsão do estado do tempo para um mês, os cálculos vão levar cinco anos, tendo em conta o que hoje se sabe da ciência da meteorologia e da sua aleatoriedade, mas sobretudo é esse o limite dos computadores de hoje. Um computador quântico vai poder efectuar esses cálculos em cinco minutos. Vejam bem a diferença colossal. Os computadores quânticos são para breve, até porque há três grandes actores globais a investir fortemente nisso: a agência de segurança interna dos Estados Unidos (NSA), a IBM e a Google. A NSA quer mesmo ter um desses computadores já a funcionar em 2020.

CONTACTO/LW: Pensam que a informática quântica é o passo tecnológico que nos falta dar para podermos aplicar ao sector aero-espacial e podermos viajar até outros sistemas estelares? 

G. e I.B..: Na realidade, o que vai acontecer é uma verdadeira ’revolução quântica’, um passo gigante para a frente. Há quatro sectores que, a nosso ver, vão sofrer grandes pulos tecnológicos: a saúde, a energia, a indústria numérica e sim, a exploração espacial, também é uma delas. Portanto, sim, estamos convictos que os computadores quânticos vão ajudar a resolver muitos dos problemas que hoje enfrentamos nessa área, como por exemplo conseguir atravessar as grandes distâncias que nos separam dos sistemas estelares mais próximos.

José Luís Correia (CONTACTO) e Anne Fourney (WORT.LU) 
in wort.lu ,  contacto.lu e Jornal CONTACTO (27.05/2015)

sábado, 16 de maio de 2015

Mini-vaivém X-37B é lançado para o seu quarto voo orbital em 20 de Maio

O vaivém X-37B foi concebido para aterrar horizontalmente, numa pista em asfalto
Foto: US Air Force

O avião espacial Boeing X-37B da Força Aérea norte-americana (US Air Force) vai ser lançado numa quarta missão neste mes de Maio.

O X-37B é um protótipo sem piloto e mais parece uma mini versão do vaivém espacial, até porque tem um design semelhante, tem um quarto da dimensão do seu predecessor, utiliza a mesma forma de ser lançado (a bordo de um foguetão) e de aterrar, como um avião, horizontalmente, numa pista em asfalto.

As tres primeiras missões foram um sucesso, afirma a US Air Force, apesar de não se saber exactamente o que isso significa, já que os objectivos e os resultados não foram divulgados publicamente, por se tratar de um projecto militar.

Entre as poucas informações que filtraram, sabe-se que o aparelho funciona com painéis solares em vez das pilhas de combustível do Space Shuttle, e que nos próximos voos será testado um novo sistema de propulsão bem como alguns materiais que vão seguir a bordo.

O vaivém X-37B mede 8,8m de comprimento por 2,9 m de altura, e 4,6m de envergadura (largura de ponta a ponta das asas), pesa menos de 5 toneladas (4.990 kg) e consegue atingir uma velocidade máxima de 28.000 km/hora (Mach 25). A área de carga mede 2,1m x 1,2m.

Os dois modelos existentes do avião experimental foram construídos pela Boeing e são propriedade da Força Aérea americana.

O X-37B começou a ser desenvolvido em 1999 com o nome de X-40 para servir de nave de apoio ao Space Shuttle. Com o fim do programa do Space Shuttle em 2011, o aparelho foi modificado para funcionar como vaivém autónomo e para ser lançado a bordo de um foguetão. O primeiro modelo - X-37A - fez voos-teste em 2005 e 2006.

Concebido para orbitar 270 dias, no seu primeiro voo - OTV-1 (OTV, "Orbital Test Vehicle", veículo-teste orbital) - que se deu entre Abril e Dezembro de 2010, o vaivém ficou em órbita durante 225 dias.

O X-37B em posição de lançamento Foto: US Air Force
O OTV-2 esteve 469 dias a orbitar a Terra, entre Março de 2011 e Junho de 2012, e a terceira missão (OTV-3) bateu mesmo um record de órbitas com 675 dias no espaço, entre Dezembro de 2012 e Outubro de 2014.

Para esta quarta missão (OTV-4), as autoridades militares americanas não revelaram o seu tempo de duração.

Sobre os rumores que o X-37B teria objectivos militares, a US Air Force nega e revela apenas que, para já, o projecto pretende conseguir um veículo espacial reutilizável, à semelhança do Space Shuttle, desactivado em 2012, bem como testar tecnologias no espaço como sistemas de navegação espaciais, materiais de protecção térmica para futuras naves, sistemas de auto-pilotagem, reentrada na atsmofera e aterragem de aparelhos espaciais, entre outras.

A quarta missão do X-37B vai ser enviado com o lançador Atlas V desde Cabo Canaveral, na Florida, a 20 de Maio. A aterragem deverá ocorrer, como as tres anteriores, na base aérea Vandenberg, em Santa Barbara, na Califórnia.

A prazo, a US Air Force preve construir um modelo X-37C que deverá ser maior do que o modelo actualmente existente e que poderá levar seis astronautas a bordo.